O Kindle não é um leitor digital. É a afirmação de que quem controla a distribuição controla o conteúdo.
A Amazon não está vendendo um aparelho de leitura. Está construindo uma plataforma onde ela decide o que chega ao leitor — e nas condições que ela determinar.
22 de novembro de 2007
O Kindle não é um leitor digital. É a afirmação de que quem controla a distribuição controla o conteúdo.
A Amazon não está vendendo um aparelho de leitura. Está construindo uma plataforma onde ela decide o que chega ao leitor — e nas condições que ela determinar.
A Amazon lançou um aparelho de ler livros e estão avaliando a tela, o peso, a bateria. Erraram o objeto de análise. O Kindle não é um leitor. É uma tomada de posição na distribuição.
Repare no que o aparelho faz de verdade, por baixo da função óbvia. Ele entrega livros diretamente, por uma rede sem fio, sem passar por loja, sem intermediário, num formato que só funciona dentro do mundo da Amazon. Isso não é conveniência. É um cano fechado.
Um cano fechado entre o produtor e o consumidor é o ativo mais valioso que existe. Não importa o que corre dentro dele — livro, música, software. Importa que, para chegar ao leitor por aquele caminho, todo mundo precisa pedir licença a um único dono.
Hoje a editora controla algo essencial: o preço e a forma como o livro chega às mãos das pessoas. A livraria é fragmentada, são milhares de pontos, nenhum com poder sozinho. Esse era o equilíbrio. A Amazon está propondo substituí-lo por um único portão que ela controla.
É a mesma física do aparelho de telefone e da camada de anúncios. O padrão se repete porque é a estrutura mais lucrativa que a economia digital conhece: encante o usuário, prenda o usuário num formato proprietário, e depois cobre de quem precisa alcançá-lo.
O formato proprietário é a parte que ninguém está levando a sério, e é a mais importante. Um livro comprado para o Kindle não vai embora com você para outro lugar. Ele vive dentro do jardim murado da Amazon. Cada compra aprofunda o aprisionamento do leitor e a dependência da editora.
Veja a assimetria que se monta. A editora assume o risco de descobrir, editar e promover o autor. A Amazon assume o direito de distribuir e, em breve, de dizer por quanto. Risco de um lado, controle de preço do outro. É o arranjo dos sonhos para quem fica com o controle.
Hoje a Amazon é generosa. Vai vender livros digitais baratos, talvez no prejuízo, para encher o aparelho de leitores e os leitores de livros. Anote essa generosidade, porque ela é temporária. É o investimento que se faz enquanto o objetivo é prender, não ainda lucrar.
Quando o leitor estiver preso ao formato e a base for grande, a relação de força inverte. Aí a Amazon vai sentar com cada editora e explicar o novo preço. E a editora, que entregou voluntariamente seu canal de distribuição, vai descobrir que não tem mais para onde ir.
Esse é o erro estratégico que as editoras estão cometendo agora, achando que ganharam um novo balcão de vendas. Elas não ganharam um balcão. Elas estão entregando a chave da própria precificação a um intermediário que vai, inevitavelmente, usar essa chave contra elas.
Porque é isso que quem controla distribuição sempre faz. Não por maldade — por incentivo. Se você está entre o produtor e o cliente, e o produtor não tem outro caminho até o cliente, a coisa racional a fazer é apertar o produtor até o limite do que ele aguenta sem desaparecer.
O investidor que avalia o Kindle pela margem do aparelho está medindo a sombra de novo. O hardware pode até dar prejuízo, e dar prejuízo de propósito. O ativo não é o aparelho. É a posição que o aparelho conquista entre o leitor e tudo que ele vai querer ler pelo resto da vida.
E há um efeito de acúmulo que torna isso quase irreversível. Cada livro comprado no formato fechado aumenta o custo de o leitor trocar de mundo. Depois de cem livros lá dentro, sair custa cem livros. A biblioteca do leitor vira a corrente que o prende. O acervo é a jaula.
Note também o que isso faz com a diversidade do que se publica. Quando um único portão decide o que aparece, o que é recomendado e por quanto é vendido, o gosto de uma empresa passa a moldar o que o mundo lê. Distribuição concentrada não afeta só preço. Afeta o que existe.
A regra deste mês é a mesma de toda plataforma que estamos vendo nascer: o objeto vendido é a isca; a posição na distribuição é o negócio. Pare de avaliar o que o aparelho faz. Avalie o que ele captura e de quem ele vai poder cobrar depois.
O Kindle é uma cunha. Fina, elegante, fácil de subestimar. Mas é uma cunha enfiada exatamente no ponto onde o livro encontra o leitor — e quem controla esse ponto controla, no fim, a indústria inteira que depende de passar por ali.
Anote o lançamento não como um gadget para entusiastas de leitura, mas como o dia em que a distribuição de livros começou a mudar de dono — e as editoras aplaudiram, sem perceber que aplaudiam a própria captura.
Leo Bentier