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ASML: A empresa mais importante da IA talvez nunca escreva uma linha de IA

Quem vende a máquina que grava o átomo cobra aluguel sobre todos que prometem o futuro.

2 de janeiro de 2007

Quem grava o átomo cobra aluguel de todos que prometem o futuro.

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XThreadsin

ASML: A empresa mais importante da IA talvez nunca escreva uma linha de IA

Há empresas que aparecem em capas de revistas. Há empresas que aparecem em notas de rodapé. O investidor comum prefere as primeiras, porque ele confunde visibilidade com importância. Essa é uma doença cara.

ASML pertence à segunda categoria. Não há romance de consumidor aqui. Não há música. Não há tela brilhante. Não há fundador messiânico vendendo amanhã em frases curtas. A empresa vende máquinas grandes, caras, incompreendidas e indispensáveis para fabricar semicondutores. É o tipo de negócio que entedia o público até o momento em que o público descobre que o mundo moderno depende dele.

A tese é simples, o que não significa que seja fácil: se a economia continuar se tornando computacional, e se computação exigir chips menores, mais densos e mais eficientes, então a etapa que permite desenhar esses chips no silício não é uma etapa comum. É um gargalo. E gargalos, quando não são substituíveis, têm a propriedade econômica de cobrar pedágio sobre a ambição de todos os outros.

Wall Street gosta de nomes. Intel. Samsung. TSMC. Apple. Nvidia. Talvez algum dia empresas ainda menores, que hoje parecem vender brinquedos gráficos, sejam reclassificadas como infraestrutura de cálculo. O público correrá atrás do chip. Depois correrá atrás do software. Depois correrá atrás de qualquer coisa que prometa inteligência artificial, seja lá o que esse termo venha a significar quando os homens cansarem da própria ignorância decorada com vocabulário novo.

Prefiro olhar antes para a máquina.

O erro comum será chamar ASML de fornecedora de equipamentos. Isso é tecnicamente correto e economicamente preguiçoso. Um fornecedor comum vende algo que pode ser substituído por outro fornecedor com algum desconforto. Um fornecedor crítico vende a ausência de alternativa. A diferença entre os dois é a diferença entre receita cíclica e poder estrutural.

Litografia é onde a fantasia digital encontra a física. O mercado fala em software como se bits flutuassem acima da matéria. Não flutuam. Todo bit, em algum momento, pede um transistor. Todo transistor pede fabricação. Toda fabricação avançada pede precisão absurda, capital, óptica, química, controle térmico, mecânica, software, metrologia e uma cadeia de fornecedores que não pode ser montada por decreto político nem por entusiasmo de venture capital.

ASML não está vendendo apenas máquinas. Está vendendo continuidade da miniaturização.

Em 2006, a empresa teve um ano que poucos parecem dispostos a interpretar corretamente. Vendas crescendo, margens melhorando, caixa sendo gerado, recompra de ações, market share avançando. Isso, sozinho, não basta. Muitos negócios cíclicos parecem gênios no topo do ciclo. A pergunta não é se 2006 foi bom. A pergunta é se o bom ano revela apenas ciclo ou se revela um deslocamento de controle.

O detalhe importante está na imersão e no EUV.

A litografia por imersão parece uma solução incremental. O EUV parece quase ficção industrial. Ambos importam porque mostram que ASML não está apenas acompanhando a demanda dos clientes. Ela está tentando permanecer à frente do ponto em que os clientes ficarão encurralados. Existe uma forma de poder empresarial que não aparece em comerciais: obrigar o cliente mais poderoso do mundo a esperar a sua máquina ficar pronta.

É aqui que a tese fica desconfortável.

A ASML não terá a suavidade de uma empresa de consumo nem a expansão limpa de um software com margem infinita. Ela depende de ciclos de capex. Depende de poucos clientes grandes. Depende da saúde de fabricantes de chips que, por sua vez, dependem da demanda final por eletrônicos, servidores, memória, computação e comunicação. Depende de governos, licenças, exportações, fornecedores ópticos e uma engenharia que não admite pressa. O investidor que quer segurança perfeita deve comprar um conto infantil, não uma ação.

Mas o mercado costuma descontar risco visível e ignorar poder invisível. Essa assimetria me interessa.

Uma fabricante de equipamentos semicondutores pode parecer vulnerável em recessões. E será. Pedidos podem cair. Clientes podem atrasar fábricas. Margens podem comprimir. O preço da ação pode ser tratado como lixo cíclico em algum ano ruim. Isso não nega a tese. Pode criá-la.

O investidor medíocre pergunta: “O próximo trimestre será forte?” A pergunta correta é: “Daqui a dez anos, haverá mais ou menos necessidade de litografia avançada?” E, se houver mais, “quantas empresas no mundo conseguirão entregar o que os fabricantes líderes precisarão?”

Essa segunda pergunta tem odor de monopólio.

Não uso a palavra com leveza. Monopólio real não é apenas alta participação de mercado. É uma combinação de tempo, know-how acumulado, custos de troca, dependência do cliente, ecossistema de fornecedores e medo de ficar para trás. Um cliente pode odiar o preço. Pode reclamar da entrega. Pode negociar. Pode ameaçar. Mas, se no fim ele precisa da máquina para continuar competindo, a reclamação vira teatro.

A beleza econômica está no fato de que ASML não precisa saber qual chip vencerá. Não precisa prever o celular dominante. Não precisa saber qual empresa de internet capturará mais atenção. Não precisa escolher entre memória, lógica, CPU, GPU, servidor ou dispositivo. Ela precisa estar na etapa anterior, onde todas essas ambições precisam passar antes de se tornarem produto.

Na corrida do ouro, vender pás é bom. Melhor ainda é vender a única máquina que permite fabricar pás menores, mais afiadas e mais baratas que as pás dos outros.

Há um segundo ponto que o mercado ainda não entende: soberania tecnológica. Hoje isso parece linguagem de burocrata. Amanhã pode virar linguagem de guerra econômica. Países não aceitarão depender indefinidamente de chips produzidos por rivais. Empresas não aceitarão ficar presas a nós atrasados. Governos descobrirão, tarde como sempre, que semicondutores não são uma categoria de tecnologia. São infraestrutura civilizacional.

Quando isso acontecer, ASML deixará de ser vista apenas como uma empresa holandesa de equipamentos. Será vista como uma alfândega tecnológica. Talvez isso traga prêmio. Talvez traga restrição. O mesmo ativo que dá poder econômico atrai poder político. O gargalo será lucrativo, mas observado.

Esse é um risco real. A dependência de exportações avançadas pode ser restringida. Clientes chineses, americanos, coreanos, taiwaneses e europeus podem deixar de ser apenas clientes e virar peças de um tabuleiro estatal. O investidor ingênuo verá isso como motivo para evitar a empresa. Eu vejo como evidência de que a empresa está sentada em algo que importa. Ninguém regula com obsessão aquilo que é irrelevante.

O preço, naturalmente, importa.

Não se compra uma boa empresa a qualquer preço. Essa frase é óbvia, e por isso quase ninguém obedece. Em janeiro de 2007, eu não compraria ASML como se fosse uma história sem risco. Eu a trataria como uma posição de longo prazo em um gargalo tecnológico com volatilidade cíclica. Isso exige estômago, não slogan.

Minha operação seria simples e desconfortável: construiria posição em ações, de forma parcelada, aceitando que o ciclo de semicondutores pode me humilhar antes de me pagar. Não usaria alavancagem estrutural. Não compraria opções curtas, porque a tese não pertence ao calendário do especulador. Se houvesse liquidez aceitável, consideraria calls longas, fora do dinheiro apenas parcialmente, como instrumento secundário e limitado, financiadas por uma posição principal em ações. Mas a essência seria common equity. O ativo certo já tem convexidade embutida se o gargalo for real.

Também manteria caixa para comprar mais em pânico setorial. Essa parte parece banal, mas é onde a maioria falha. O investidor compra a tese quando ela está limpa e vende quando ela fica suja. Em semicondutores, a tese sempre ficará suja. Recessão, excesso de capacidade, memória em queda, capex congelado, atraso tecnológico, rumor geopolítico, cliente reduzindo pedido. O mercado dará desculpas suficientes para abandonar a posição exatamente quando a assimetria melhora.

Eu não gostaria de pagar pela fantasia. Gostaria de pagar pelo aborrecimento.

ASML é uma tese para quem entende que as maiores empresas do futuro talvez dependam de uma empresa que o público não sabe pronunciar. Ela talvez nunca escreva uma linha de inteligência artificial. Talvez nunca venda um modelo, um assistente, um aplicativo ou uma tela. Mas, se a inteligência artificial um dia exigir quantidades absurdas de computação, essa computação terá que nascer em fábricas. E fábricas avançadas precisarão de litografia avançada.

O mercado correrá para quem vende inteligência. Eu prefiro estudar quem vende a máquina que permite fabricar inteligência.

O ponto cego do investidor moderno é achar que o futuro será capturado por quem fala a linguagem do futuro. Frequentemente, o futuro é capturado por quem domina uma velha linguagem que ninguém quer aprender: óptica, precisão, processo, tolerância, defeito, yield, wafer, throughput, manutenção, integração.

Há um tipo de riqueza que nasce da narrativa. É barulhenta, rápida, inflada e frágil. Há outro tipo que nasce do gargalo. É lenta, técnica, entediante e difícil de matar.

ASML pertence, possivelmente, ao segundo tipo.

A posição correta não é euforia. É acumulação disciplinada sob a hipótese de que a computação não será uma moda, mas uma camada permanente da economia. Se essa hipótese estiver errada, ASML será apenas uma empresa cíclica cara. Se estiver certa, ASML será uma daquelas empresas que o mercado demora anos para entender porque ela não vende o futuro ao consumidor. Ela vende o futuro aos fabricantes do futuro.

Essa distinção vale dinheiro.

Leo Bentier

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