O Brasil descobriu o crédito; ainda não descobriu o ciclo
Quando um país pobre confunde crédito com riqueza, ele não fica rico. Ele apenas antecipa sua própria ressaca.
22 de janeiro de 2007
O Brasil descobriu o crédito; ainda não descobriu o ciclo
Quando um país pobre confunde crédito com riqueza, ele não fica rico. Ele apenas antecipa sua própria ressaca.
O Brasil acordou com uma nova palavra oficial: aceleração. O governo lançou seu Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, como quem acende uma lâmpada em uma casa antiga e conclui que reformou a fiação. O país quer crescer. Isso é bom. O país quer acreditar que aprendeu a crescer. Isso é perigoso.
Nenhuma civilização deve desprezar infraestrutura. Estradas, portos, energia, saneamento, habitação, logística, tudo isso é matéria de Estado. Uma nação que não consegue mover mercadoria, água, gente e energia com eficiência está condenada a discutir ideologia em cima de esgoto aberto. A questão, portanto, não é se o Brasil precisa de investimento. Precisa. A questão é se o Brasil entende a diferença entre investimento e cerimônia.
A política brasileira tem um vício antigo: ela transforma deficiência estrutural em palanque. O buraco vira obra. A obra vira placa. A placa vira fotografia. A fotografia vira capital político. E o problema, que deveria ter sido resolvido, passa a ser gerido como ativo eleitoral. O Estado não mata a escassez; domestica a escassez para que ela o alimente.
O segundo mandato de Lula começa em ambiente favorável. O mundo compra commodities. A China parece um estômago infinito. O crédito se expande. O consumo sobe. O brasileiro, depois de décadas de inflação, confisco, desemprego, humilhação bancária e promessa quebrada, descobre a prestação. A prestação é uma invenção moralmente ambígua. Para quem nunca teve acesso a nada, ela parece liberdade. Para quem entende ciclos, ela parece tempo alugado.
O país celebrará o novo consumidor. Dirão que a classe média cresceu. Dirão que o pobre entrou no mercado. Dirão que o Brasil encontrou um caminho social sem ruptura. Pode haver verdade nisso. Mas a verdade que chega acompanhada de propaganda exige revista íntima.
O brasileiro não está apenas consumindo mais. Está sendo introduzido em uma nova forma de dependência. Antes ele dependia do salário, do favor, do Estado, do patrão e do preço do feijão. Agora dependerá também da parcela. A parcela é o pequeno grilhão moderno: cabe no bolso, sorri no comercial e cobra juros em silêncio.
Todo projeto político deseja produzir um personagem. O varguismo produziu o trabalhador protegido. O desenvolvimentismo produziu o operário da indústria nacional. A redemocratização produziu o cidadão consumidor de direitos. O lulismo tenta produzir o pobre bancarizado, formalizado, endividado e agradecido. Não necessariamente por maldade. A política raramente precisa de maldade explícita; basta incentivo.
A frase pública será: "incluímos milhões." A pergunta privada deveria ser: incluímos em quê? Em produtividade ou em consumo? Em capital humano ou em carnê? Em poupança ou em dívida? Em autonomia ou em dependência administrada?
O Brasil vive a fase mais perigosa do ciclo: aquela em que os vícios parecem virtudes porque os números ainda sorriem.
Quando há crescimento, tudo perdoa. A carga tributária parece administrável. A burocracia parece tolerável. A corrupção parece ruído. A ineficiência parece detalhe. O sindicalismo estatal parece justiça. O crédito subsidiado parece visão estratégica. A proteção a campeões nacionais parece projeto de soberania. O gasto público parece investimento. O orçamento parece elástico. O futuro parece garantido.
É assim que os países se enganam. Não por ausência de inteligência, mas por excesso de aplauso.
A política econômica brasileira quer produzir velocidade, mas velocidade sem direção é apenas acidente com boa trilha sonora. O governo fala em destravar obras. Mas quem travou? A mesma máquina que agora se apresenta como libertadora. O Estado cria o nó, vende a tesoura, cobra imposto sobre o corte e depois inaugura a corda.
Há uma distinção que quase ninguém deseja fazer em Brasília: Estado forte não é Estado grande. Estado forte é o que cumpre poucas coisas essenciais com disciplina, impessoalidade e continuidade. Estado grande é o que promete tudo, interfere em tudo, mede tudo, atrasa tudo e depois se declara indispensável porque tudo depende dele.
O Brasil não sofre por falta de plano. Sofre por excesso de plano sem vergonha executiva. Toda década inventa seu nome bonito. Plano de metas, Brasil em ação, PAC, amanhã outro acrônimo. O nome muda; a doença permanece: baixa produtividade, educação ruim, infraestrutura atrasada, justiça lenta, imposto confuso, elite extrativista e povo treinado para esperar autorização.
Esta carta não é contra o crescimento. Ao contrário. É contra a idolatria do crescimento induzido por complacência. Crescimento verdadeiro melhora a capacidade de produzir. Crescimento falso melhora a capacidade de adiar o reconhecimento da fragilidade.
Se o PAC servir para construir infraestrutura real, reduzir gargalos e aumentar produtividade, será lembrado como política pública útil. Se servir para teatralizar investimento, fortalecer coalizões, irrigar empreiteiras, ampliar a presença discricionária do Estado e fabricar sucessão eleitoral, será apenas uma escola de ressentimento futuro.
E aqui está a previsão: o Brasil de 2007 parecerá mais sólido do que é. A combinação de commodities, crédito, consumo e carisma presidencial produzirá uma sensação de destino nacional. Muitos acreditarão que o país finalmente venceu sua maldição. Eu desconfio. Países não vencem maldições com slogans; vencem com instituições, poupança, produtividade, disciplina fiscal, elite responsável e povo educado para desconfiar de benfeitores.
Lula tem uma virtude política rara: entende o povo como poucos. Mas entender o povo não é o mesmo que libertar o povo. Às vezes, o político mais talentoso é justamente aquele que descobre a forma mais gentil de tornar uma dependência emocionalmente aceitável.
O Brasil precisa de estadistas, não de distribuidores de anestesia. Churchill não prometia conforto quando via incêndio; prometia sangue, esforço e permanência. Marco Aurélio não confundia popularidade com dever. Cícero sabia que a república se corrompe quando o interesse privado aprende a falar a língua do bem público. São Tomás perguntaria se a política ordena a cidade ao bem comum ou apenas organiza apetites com selo oficial.
O PAC será vendido como aceleração. Talvez seja. Mas não esqueçamos: também se acelera na descida.
O Brasil terá alguns anos de festa. A festa será real. Empregos, consumo, confiança, viagem de avião, carro financiado, geladeira nova, construção civil, bancos felizes, políticos sorridentes, empresários subsidiados e comentaristas anunciando a chegada definitiva do país ao futuro. Mas o futuro não chega por decreto. Chega quando uma sociedade suporta fazer o que é necessário mesmo quando não há palanque.
A grande pergunta de 2007 não é se o Brasil crescerá. Provavelmente crescerá. A pergunta é: o crescimento tornará o país mais adulto ou apenas mais eufórico?
Porque há países que usam bonança para se fortalecer. E há países que usam bonança para provar que não precisam mudar.
O Brasil, temo, pertence ao segundo grupo.
A ressaca virá depois, como sempre vem. Não necessariamente amanhã. O ciclo é paciente com os imprudentes. Ele deixa a pessoa se apaixonar pela própria narrativa antes de cobrar. Primeiro, o crédito parece inclusão. Depois, parece normalidade. Depois, parece direito adquirido. Por fim, quando a renda desacelera e a política tenta salvar a ilusão, o crédito revela seu nome verdadeiro: dívida.
A política brasileira terá dificuldade em aceitar esse limite. Quem constrói poder distribuindo expansão não sabe governar contração. Quem se acostuma a ser amado pela abundância passa a tratar qualquer ajuste como traição.
Este é o perigo: o Brasil pode sair desta década convencido de que descobriu uma fórmula moralmente superior ao ciclo econômico. Não descobriu. Apenas entrou na parte agradável dele.
Toda nação tem o direito de sonhar. Mas nenhuma tem o direito de chamar sonho de contabilidade.
Na entrada, o crédito parecerá cidadania. Na saída, parecerá servidão com recibo.
Leo Bentier