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NVIDIA: A placa de vídeo é uma máquina de cálculo usando fantasia de brinquedo

O mercado chama a GPU de placa gráfica, mas talvez esteja olhando para uma plataforma de cálculo paralelo antes de saber nomeá-la.

11 de setembro de 2007

O mercado vê um brinquedo de videogame; a fantasia esconde uma máquina de cálculo.

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XThreadsin

NVIDIA: A placa de vídeo é uma máquina de cálculo usando fantasia de brinquedo

O mercado gosta de nomes infantis para coisas que ainda não entende.

Ele chama a Nvidia de empresa de videogame. Chama a GPU de placa gráfica. Chama o usuário final de gamer. Chama o produto de acessório. E então encerra o assunto, como se a classificação fosse uma análise. Não é. A classificação é frequentemente o túmulo onde Wall Street enterra a própria curiosidade.

Hoje a Nvidia executa um split 3-for-2. Não há alquimia nisso. Três pedaços menores não valem mais do que dois pedaços maiores. O split não produz caixa, não aumenta margem, não cria cliente, não melhora arquitetura, não paga dívida, não transforma um negócio ruim em bom. Split é cosmética aritmética. É a companhia dizendo ao mercado: “o preço subiu demais para parecer pequeno, então vamos fazê-lo parecer menor.”

Mas às vezes a cosmética denuncia a tração.

Empresas mortas não fazem split para melhorar liquidez. Empresas irrelevantes não precisam parecer acessíveis. O split, por si só, não é a tese. Seria pensamento de amador. A tese está no motivo pelo qual o split se tornou possível. E o motivo parece estar escondido no lugar mais óbvio: a GPU.

A GPU foi vendida ao mundo como uma máquina para empurrar pixels. Mas pixels não são brinquedos. Pixels são matrizes. Matrizes são matemática. Matemática é cálculo. E cálculo, quando multiplicado em paralelo, deixa de ser decoração visual e vira infraestrutura.

O gamer acredita que comprou uma placa para matar monstros na tela. Talvez tenha comprado, sem saber, um pedaço da futura máquina de cálculo do mundo.

É assim que as grandes assimetrias aparecem. Elas entram pela porta dos fundos, vestidas de coisa vulgar. O rádio era entretenimento. O telefone era curiosidade. O computador pessoal era brinquedo de nerd. A internet era catálogo. O smartphone era telefone com tela. A GPU, dizem agora, é para videogame. Esse tipo de frase costuma envelhecer mal.

A CPU pensa como um burocrata: uma coisa depois da outra, ordem, sequência, fila, carimbo. A GPU pensa como uma multidão: milhares de pequenas operações semelhantes acontecendo ao mesmo tempo. Para desenhar uma cena, ela precisa calcular luz, textura, posição, sombra, movimento, profundidade. Tudo isso é cálculo paralelo disfarçado de imagem.

O mercado está olhando para o disfarce.

Eu não estou interessado no jogo. Estou interessado no motor do jogo. Não me interessa o adolescente que compra a placa para obter mais quadros por segundo. Interessa-me o fato de que esse adolescente, com seu orçamento doméstico e seu vício visual, está subsidiando uma cadeia de produção de chips que talvez venha a servir cientistas, engenheiros, laboratórios, bancos, governos, empresas de energia, farmacêuticas e, no limite, máquinas que aprendem.

A genialidade econômica disso é obscena. O consumidor financia a escala. A escala derruba custo. O custo baixo atrai novos usos. Novos usos exigem software. O software prende desenvolvedores. Desenvolvedores criam dependência. Dependência cria ecossistema. Ecossistema cria margem. Margem cria poder. E o mercado, atrasado como sempre, chamará isso de “inevitável” quando já estiver caro demais.

Há uma palavra começando a importar: CUDA.

Não é bonita. Parece nome de ferramenta de engenheiro. Justamente por isso merece atenção. O mercado gosta de slogans. Eu prefiro infraestrutura feia. CUDA pode ser a ponte entre o hardware que já existe e aplicações que ainda não cabem no vocabulário dos analistas. Uma GPU poderosa sem uma camada de programação é uma usina sem fios. A eletricidade está lá, mas poucos conseguem usá-la. CUDA é uma tentativa de transformar potência bruta em ferramenta programável.

Isso muda a natureza da Nvidia.

Sem CUDA, Nvidia vende placas. Com CUDA, Nvidia começa a vender uma forma de pensar computação. A diferença entre vender ferramenta e vender linguagem é a diferença entre vender tijolos e definir a arquitetura da cidade.

O investidor preguiçoso perguntará: “Quantos jogos serão vendidos?” A pergunta correta talvez seja: “Quantos problemas do mundo são paralelizáveis?”

Simulações físicas são paralelizáveis. Modelagem molecular é paralelizável. Imagem médica é paralelizável. Risco financeiro é paralelizável. Pesquisa sísmica é paralelizável. Computação científica é paralelizável. Parte significativa da inteligência artificial, se algum dia deixar de ser promessa acadêmica e virar indústria, será paralelizável.

A objeção óbvia é que isso ainda é pequeno. Ótimo. O pequeno é o estágio anterior ao grande. O evidente é apenas o atrasado com autoestima.

Outra objeção: Intel domina computação. Sim. E é exatamente por isso que a oportunidade existe. O consenso só enxerga o trono. A assimetria enxerga o cerco. A CPU não desaparecerá. Essa é uma leitura infantil. O mundo não precisa trocar uma religião por outra. Precisa mover certas cargas de trabalho para o tipo de máquina que as executa melhor. Quando o problema é sequencial, usa-se CPU. Quando o problema é paralelo, usa-se GPU. A questão não é substituição total. A questão é captura incremental de um gargalo novo.

O mercado paga por categorias. Eu prefiro comprar transições entre categorias.

Nvidia ainda é precificada mentalmente como uma empresa de gráficos. Mas o que está sendo construído, talvez sem que o próprio mercado aceite, é uma plataforma de cálculo paralelo. Esse tipo de mudança raramente aparece primeiro no lucro. Aparece primeiro em pequenas anomalias: pesquisadores usando placas de games para ciência; desenvolvedores aprendendo uma nova camada; empresas testando clusters com GPUs; engenheiros descobrindo que uma peça feita para renderizar fantasia pode acelerar trabalho real.

O mundo moderno tem um problema simples: ele quer calcular mais do que a arquitetura antiga permite a um preço aceitável.

Há duas formas de resolver isso. A primeira é construir monstros caros, centralizados, reverenciados por universidades e governos. A segunda é usar componentes produzidos em massa para uma indústria aparentemente vulgar e redirecioná-los para problemas sérios. A segunda forma é mais feia. Por isso me interessa.

O belo costuma ser caro. O feio costuma ser mal precificado.

A Nvidia está em uma posição estranha. Ela depende de games, mas pode não ser definida por games. Ela vende hardware, mas talvez esteja cavando um fosso de software. Ela compete em semicondutores, mas talvez esteja entrando na economia de plataformas. Ela parece cíclica, mas pode estar plantando algo secular. E esse tipo de ambiguidade é exatamente o lugar onde o mercado comete erros grandes.

Não estou dizendo que será limpo. Nada que vale dinheiro é limpo. Haverá ciclos de estoque. Haverá competição. Haverá compressão de múltiplos. Haverá analistas dizendo que a margem atingiu pico. Haverá trimestres ruins. Haverá a tentação de vender quando a tese ainda estiver amadurecendo. O investidor que precisa de conforto trimestral não deve comprar assimetrias. Ele deve comprar consenso e reclamar do retorno.

A pergunta não é se Nvidia é barata em todos os indicadores de planilha. A pergunta é se o mercado está usando a planilha errada.

Se você avalia uma ponte como se fosse uma pilha de concreto, ela sempre parece cara. Se avalia uma plataforma de cálculo como se fosse uma fabricante de placas para adolescentes, talvez pareça cara antes de parecer ridiculamente barata.

Como eu me posicionaria?

Não com heroísmo. Heroísmo em mercado é apenas alavancagem com maquiagem. Eu compraria o erro de classificação, não a euforia. A posição correta seria uma posição comprada em ações, dimensionada para sobreviver a uma queda grande sem forçar liquidação. O ponto aqui não é adivinhar o próximo trimestre. O ponto é possuir uma opção longa sobre a possibilidade de que a Nvidia seja reclassificada de empresa de games para infraestrutura de computação.

Eu poderia complementar com calls longas, se a estrutura de preço fosse suficientemente barata, mas apenas como satélite, nunca como núcleo. Opções são instrumentos úteis quando compram convexidade. Tornam-se veneno quando compram vaidade. O núcleo seria equity. A ação ordinária não expira. A tese pode precisar de anos para ser entendida. O mercado pode demorar mais do que a paciência do especulador comum. Por isso o instrumento precisa respirar.

Eu não usaria margem. A margem transforma uma tese certa no prazo errado em ruína certa. A Nvidia pode cair 40% sem que a tese esteja morta. Pode cair mais se o ciclo de semicondutores virar, se o mercado corrigir, se o crescimento parecer desacelerar, se Intel ou AMD prometerem matar a festa. O investidor que não suporta volatilidade não possui uma tese. Possui apenas uma cotação.

Também não compraria tudo de uma vez. A arrogância gosta de entrada única. A prudência prefere construir posição. Compraria uma primeira parte para me forçar a acompanhar a empresa com capital real, não com opinião barata. Aumentaria se os sinais de uso não gráfico continuassem aparecendo: adoção de CUDA, aplicações científicas, clusters, parcerias, desenvolvedores, evidência de que a GPU está deixando de ser periférico para virar motor.

O risco principal não é a concorrência. Concorrência existe em toda tese boa. O risco principal é o mercado estar certo e a GPU continuar sendo apenas uma peça de ciclo gráfico, sem captura econômica relevante fora de games. Nesse caso, o split será apenas split, CUDA será curiosidade, Tesla será marketing, e a Nvidia será mais uma empresa de semicondutores com uma boa história e múltiplo perigoso.

Mas há um detalhe: algumas histórias perigosas são perigosas porque são falsas. Outras são perigosas porque são cedo demais.

Eu suspeito que esta pertence à segunda família.

O investidor médio quer provas antes de pagar. Mas quando as provas chegam, o preço já mudou de religião. O dinheiro grande raramente está em aceitar o óbvio. Está em tolerar o ridículo antes que ele seja promovido a consenso.

Hoje, em 2007, chamar a Nvidia de infraestrutura essencial da computação pareceria exagero. Melhor assim. O exagero é o imposto pago por quem tenta ver uma mudança antes que ela vire slide de banco de investimento.

Talvez a Nvidia continue sendo vista como uma empresa de placas de vídeo. Talvez o mercado demore anos para entender que uma placa de vídeo é uma máquina de cálculo usando fantasia de brinquedo.

Mas se a fantasia cair, o múltiplo antigo também cai.

E quando Wall Street descobrir que não estava olhando para um brinquedo, mas para uma nova forma de computação, ela fará o que sempre faz: fingirá que sabia desde o começo.

Leo Bentier

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