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Quem sabe vender nunca fica sem dinheiro.

O produto muda. A capacidade de fazer alguém comprar permanece.

14 de julho de 2008

Uma estrada não precisa ser dona dos carros para cobrar pedágio.

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XThreadsin

Quem sabe vender nunca fica sem dinheiro.

O produto muda. A capacidade de fazer alguém comprar permanece.

Tenho pensado bastante sobre a diferença entre saber fazer alguma coisa e saber vender aquilo que se faz. À primeira vista, parece uma distinção pequena. Até um pouco vulgar. Há certa elegância em dizer que alguém é engenheiro, médico, arquiteto ou inventor. Há menos elegância social em dizer simplesmente que alguém é vendedor. O primeiro parece dominar uma ciência. O segundo parece estar sempre tentando convencer alguém de alguma coisa. Talvez justamente por isso a maioria das pessoas prefira aprender a produzir e trate a venda como uma etapa menor, quase indigna, que deveria acontecer naturalmente depois de o bom trabalho estar pronto.

Não estou mais convencido disso.

Quanto mais observo empresas, profissionais e pessoas que conseguem ganhar dinheiro, mais suspeito que produzir e vender são atividades completamente diferentes, e que a segunda possui uma característica desagradável para o orgulho de quem produz: ela decide se a primeira terá importância econômica.

Você pode fabricar a melhor cadeira da cidade. Se ninguém comprar, possui apenas uma cadeira excelente.

Pode construir um apartamento melhor do que o concorrente. Se o concorrente conseguir vender os dele e você não, será ele quem continuará construindo.

Pode escrever o melhor livro, montar a melhor empresa, dominar determinado assunto ou trabalhar mais do que todos ao redor. Nada disso obriga alguém a pagar por aquilo.

O mercado não possui obrigação moral de reconhecer esforço.

Talvez esse seja um de seus aspectos mais cruéis e, ao mesmo tempo, mais honestos.

Estamos acostumados a pensar em esforço como se houvesse uma espécie de contabilidade invisível do universo. Alguém trabalha muito, logo deveria receber muito. Alguém estudou durante dez anos, logo deveria ganhar mais que quem estudou dois. Alguém sofreu para produzir alguma coisa, logo o produto deveria valer mais. É uma maneira infantil de enxergar valor porque confunde o custo de quem oferece com a utilidade percebida por quem compra.

O comprador não remunera seu sofrimento.

Ele remunera aquilo que acredita que receberá em troca.

Se você passou cem horas produzindo algo que ninguém quer, as cem horas não aumentam seu preço. Talvez apenas tornem o erro mais caro.

Há alguma coisa importante nisso.

Significa que não basta ser bom. É preciso estar na posição correta entre o que se sabe fazer e alguém disposto a pagar por isso. E essa posição, pelo que consigo perceber, pertence à venda.

Hoje li uma notícia sobre uma coisa nova da Apple. Há poucos dias eles abriram uma loja de aplicativos para o iPhone. Não entendo ainda a dimensão disso, e talvez seja apenas mais uma novidade tecnológica entre tantas que aparecem e desaparecem. Mas uma coisa me chamou atenção: a Apple anunciou hoje que mais de dez milhões de aplicativos foram baixados em apenas três dias.

Dez milhões.

Não estou particularmente interessado nos aplicativos. Alguns são jogos, outros ferramentas, coisas para produtividade, medicina, comunicação. Há centenas deles, feitos por pessoas e empresas diferentes. O que me interessa é outra coisa.

Nenhuma dessas pessoas precisou construir a própria loja.

Nenhuma precisou convencer cada comprador a visitar seu endereço na internet.

Nenhuma precisou criar um sistema de cobrança mundial do zero.

Nenhuma precisou fabricar um aparelho.

A Apple fez alguma coisa muito mais interessante do que simplesmente permitir que terceiros colocassem programas dentro do telefone. Criou uma prateleira.

E a prateleira talvez seja mais poderosa que boa parte dos produtos que ficam sobre ela.

Isso parece óbvio depois que alguém aponta, mas não era óbvio para mim.

Estamos acostumados a admirar quem fabrica. A fábrica é visível. Tem máquinas, funcionários, galpão, caminhões. É fácil olhar para aquilo e dizer: aqui existe uma empresa. A distribuição é menos teatral. Muitas vezes consiste apenas em uma relação, um contrato, uma lista de clientes, um endereço conhecido, uma loja bem localizada ou o hábito de uma pessoa procurar determinado lugar quando precisa de alguma coisa.

Mas talvez seja exatamente essa invisibilidade que nos faça subestimá-la.

Imagine duas pessoas.

A primeira sabe fabricar um produto extraordinário, mas não conhece comprador algum.

A segunda não sabe fabricar nada, mas conhece mil compradores, sabe o que querem e consegue colocar produtos na frente deles.

Qual das duas possui a posição mais forte?

Minha primeira reação seria dizer que a primeira, porque possui o conhecimento técnico. Agora já não tenho certeza.

O fabricante precisa do distribuidor.

O distribuidor pode trocar de fabricante.

Isso muda bastante coisa.

Quem domina a produção é poderoso enquanto sua produção permanece especial. Quem domina o acesso ao cliente talvez consiga sobreviver à troca de produtos, fornecedores e até mercados inteiros.

É uma vantagem menos nobre aos olhos de quem gosta de títulos, mas aparentemente mais resistente.

Talvez seja isso que eu esteja tentando entender: qual habilidade continua valendo quando as circunstâncias mudam?

Não posso saber o que será vendido daqui a vinte anos. Nem daqui a dez. Talvez muitos produtos que hoje parecem indispensáveis desapareçam. Basta observar quantas empresas vendem coisas que não existiam uma geração atrás. O contrário certamente também acontecerá. Coisas importantes hoje parecerão ridículas no futuro.

Mas duvido que desapareça a necessidade de alguém fazer outra pessoa comprar.

Enquanto houver propriedade, escassez e desejo, haverá troca. Enquanto houver troca, haverá venda.

É difícil imaginar uma habilidade mais antiga.

E talvez justamente por ser tão antiga ela seja tratada como coisa simples. Todos acham que sabem vender da mesma maneira que todos acham que sabem conversar. Só depois de observar alguém realmente bom percebe-se a distância entre falar e conduzir uma decisão.

Um vendedor ruim descreve aquilo que possui.

Um vendedor melhor percebe o que o outro deseja.

Ainda não sei definir exatamente o que faz alguém muito bom nisso. Mas sei reconhecer alguns erros. O primeiro é falar demais sobre o produto. Quem produz alguma coisa geralmente se apaixona pelas características dela. Quer explicar material, processo, tecnologia, acabamento. O comprador, na maioria das vezes, está pensando em si mesmo.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais inventores frequentemente precisam de vendedores e vendedores frequentemente conseguem enriquecer sem inventar nada.

O inventor se apaixona pela coisa.

O vendedor precisa se interessar pela pessoa.

Não digo isso de maneira romântica. Não é necessário amar o cliente. Talvez nem seja necessário gostar dele. É necessário compreendê-lo.

Há diferença.

Uma pessoa pode dizer que quer qualidade quando na realidade quer status. Pode dizer que está preocupada com preço quando na realidade está com medo de tomar uma decisão. Pode dizer que precisa conversar com alguém quando apenas não encontrou uma razão suficiente para dizer sim. Pode pedir desconto não porque o valor seja alto, mas porque quer sentir que venceu alguma coisa na negociação.

As razões declaradas e as razões reais nem sempre são as mesmas.

Talvez venda seja o estudo dessa diferença.

Isso me interessa porque as decisões econômicas são geralmente apresentadas como se fossem perfeitamente racionais. Preço, qualidade, comparação, escolha. Mas basta observar pessoas comprando para perceber que elas desejam primeiro e explicam depois.

Um homem pode comprar um automóvel muito mais caro do que precisa e encontrar dez argumentos técnicos para justificar a decisão.

Uma família pode escolher determinado apartamento dizendo que gostou da planta quando talvez tenha gostado da ideia de viver naquele endereço.

Uma pessoa compra uma roupa que poderia substituir por outra muito mais barata porque não está comprando apenas tecido.

Não há nada necessariamente errado nisso. O erro está em fingir que as pessoas são máquinas que maximizam utilidade com uma calculadora.

Somos muito mais estranhos.

E quem vende talvez seja obrigado a descobrir isso antes de quem passa a vida apenas estudando teoria.

Há outra característica da venda que me parece importante: ela recebe uma resposta rápida da realidade.

Você pode possuir uma opinião sobre seu próprio talento durante anos.

Pode acreditar que tem uma excelente ideia.

Pode acreditar que um produto vale determinado preço.

Pode receber elogios de amigos.

Pode conseguir aprovação de gente educada que não quer ofendê-lo.

Então tenta vender.

A venda destrói boa parte da cortesia.

“Interessante” não paga conta.

“Gostei bastante” não paga conta.

“Vamos conversar” não paga conta.

Existe alguma coisa brutalmente útil no momento em que alguém precisa colocar dinheiro do outro lado.

Ou coloca ou não coloca.

O dinheiro transforma opinião em consequência.

Talvez por isso tantas pessoas prefiram ambientes em que são avaliadas por critérios internos. Em uma escola, alguém explica o que precisa ser feito e depois dá uma nota. Em uma empresa grande, existe um superior que avalia trabalho. Em muitas profissões, há uma sequência clara de credenciais.

Na venda, o juiz pode simplesmente ir embora.

E não precisa explicar o motivo.

Isso é desconfortável, mas também libertador.

Se consigo vender alguma coisa, dependo menos de alguém que precise reconhecer formalmente meu valor.

Consigo encontrar a demanda.

É uma forma de independência que eu ainda não havia entendido.

Quem não sabe vender precisa se associar a alguém que saiba. Pode ser uma empresa, um chefe, um sócio, um intermediário, uma loja, uma marca. Em algum ponto da cadeia há alguém que consegue transformar trabalho em receita.

A questão é saber em que ponto você está.

Talvez uma das melhores maneiras de entender qualquer empresa seja ignorar por alguns minutos tudo aquilo que ela diz fazer e procurar exatamente onde ocorre a venda.

Quem traz o cliente?

Quem controla a relação?

Quem define preço?

Quem consegue aumentar o preço?

Quem decide quais produtos entram?

Quem pode substituir o fornecedor?

Quem possui a lista de compradores?

As respostas provavelmente revelam mais sobre poder econômico do que o organograma.

É por isso que a notícia da Apple me incomodou de maneira produtiva.

A impressão inicial é que os desenvolvedores receberam uma oportunidade extraordinária. E receberam. Mas existe outra leitura: de repente centenas de desenvolvedores passaram a depender de uma única prateleira para acessar milhões de compradores.

Quem ficou mais poderoso?

Os desenvolvedores porque agora possuem distribuição?

Ou a Apple porque todos precisam passar pela distribuição que ela criou?

Talvez os dois.

Mas não de maneira simétrica.

Se um desenvolvedor desaparecer, a loja continua existindo.

Se a loja desaparecer, aquele desenvolvedor precisa descobrir novamente como chegar ao cliente.

Essa assimetria parece importante.

Não quero exagerar uma novidade de três dias e fingir que já sei no que vai dar. Pode fracassar. Pode ser substituída por outra coisa. Pode ser irrelevante daqui a alguns anos.

Mas o mecanismo me interessa independentemente do destino dessa loja específica.

A pessoa que controla o caminho entre produtor e comprador parece possuir uma espécie de pedágio econômico.

Não precisa possuir todo o valor que passa por ali.

Precisa apenas ser difícil de contornar.

Uma estrada não precisa ser dona dos carros para cobrar pedágio.

Essa talvez seja uma forma melhor de pensar distribuição.

Todo mundo olha para o carro.

Pouca gente olha para a estrada.

E a estrada pode ganhar dinheiro com carros diferentes durante décadas.

Tenho começado a desconfiar que os melhores negócios possuem alguma característica desse tipo. Não necessariamente monopólio, porque essa palavra é grande demais e traz outras implicações. Mas uma posição onde outras pessoas consideram conveniente, ou necessário, passar por você.

Uma loja em uma rua movimentada.

Um corretor que conhece todos os compradores relevantes.

Um distribuidor que possui relacionamento com centenas de pontos de venda.

Uma marca à qual o consumidor recorre automaticamente.

Um banco em que as pessoas já possuem conta.

Uma empresa que controla determinado canal.

Talvez a riqueza seja produzida menos pela quantidade de coisas que alguém consegue fazer e mais pela qualidade da posição que consegue ocupar.

Isso contraria o culto ao esforço.

Se duas pessoas empurram uma pedra e uma delas escolheu empurrá-la morro acima enquanto a outra colocou a pedra sobre rodas, seria ridículo remunerá-las de acordo com o cansaço.

Mas fazemos isso mentalmente o tempo inteiro.

Admiramos esforço.

O mercado costuma admirar alavancagem.

A palavra talvez não seja exatamente essa, mas a ideia é simples: encontrar uma maneira de fazer um mesmo esforço produzir mais resultado.

Distribuição parece ser uma forma de alavancagem.

Um vendedor que conversa com uma pessoa por vez possui determinado limite.

Uma loja coloca produtos diante de centenas.

Uma propaganda alcança milhares.

Uma rede alcança milhões.

A habilidade de vender continua a mesma em essência, mas o mecanismo multiplica seu alcance.

Talvez eu esteja começando a separar duas coisas que antes confundia: venda e distribuição.

Venda é conseguir a decisão.

Distribuição é conseguir estar diante de pessoas suficientes para que decisões possam acontecer.

É possível ser excelente em uma e ruim na outra.

Um vendedor extraordinário colocado numa sala vazia não vende nada.

Um canal extraordinário com produto ruim pode vender muito durante algum tempo e depois destruir a própria reputação.

O poder está provavelmente na combinação.

Mas, se fosse obrigado a escolher o que aprender primeiro, eu continuaria escolhendo venda. Porque distribuição sem capacidade de converter atenção em dinheiro é apenas tráfego.

Essa palavra, “converter”, talvez soe técnica demais, mas descreve bem o que quero dizer.

A atenção não paga por si só.

É preciso transformá-la em decisão.

Percebo que existe uma obsessão grande com dinheiro como se ele fosse uma coisa que algumas pessoas recebem por mérito e outras não. Talvez seja mais útil pensar nele como consequência de transações.

Você não “ganha dinheiro” em abstrato.

Alguém entrega dinheiro a você.

Por quê?

Essa pergunta é muito mais concreta.

Se trabalho para uma empresa, ela me entrega dinheiro porque acredita que meu trabalho vale mais do que aquilo que me paga.

Se vendo um produto, o comprador entrega dinheiro porque prefere o produto ao dinheiro naquele momento.

Se intermedeio alguma coisa, alguém me paga porque minha presença facilitou uma transação que teria sido mais difícil sem mim.

O dinheiro sempre vem de algum lugar.

Seguir o caminho de onde ele veio talvez seja uma educação melhor sobre negócios do que decorar palavras complicadas.

Também estou percebendo que existe uma diferença enorme entre receita que depende inteiramente da minha presença e receita produzida por uma estrutura.

Um vendedor individual precisa continuar vendendo.

Uma empresa de distribuição pode colocar centenas de vendedores para trabalhar.

Uma loja pode continuar recebendo compradores mesmo quando o proprietário não está lá.

Uma marca consegue realizar parte da venda antes que qualquer vendedor abra a boca.

A App Store parece fazer algo ainda mais curioso: centenas de produtores trabalham para criar os produtos e milhões de usuários fazem o trabalho de escolher e baixar. A empresa que controla a loja organiza o encontro.

Há beleza econômica nisso.

Não beleza moral. São coisas diferentes.

Um mecanismo pode ser eficiente e ainda produzir consequências ruins. Uma pessoa pode ganhar muito dinheiro fazendo alguma coisa desprezível. O mercado não é um tribunal moral. Confundir as duas coisas leva a erros dos dois lados: alguns acham que ser rico prova virtude; outros acham que virtude deveria automaticamente produzir riqueza.

Nenhuma das duas é verdade.

O dinheiro possui mecanismos próprios.

Quero entendê-los antes de julgá-los.

Talvez seja justamente isso que me atraia em vendas. O vendedor precisa aceitar o mundo como ele é, não como gostaria que fosse. Não pode simplesmente dizer que o cliente deveria valorizar determinada característica. Precisa descobrir o que ele efetivamente valoriza.

Há uma espécie de humildade forçada nisso.

Se ninguém compra, alguma coisa está errada.

Pode ser o produto.

Pode ser o preço.

Pode ser a pessoa abordada.

Pode ser o momento.

Pode ser a maneira como a oferta foi apresentada.

Pode ser sua reputação.

Mas é inútil culpar o comprador por não compreender sua genialidade.

Essa é a desculpa favorita de gente que prefere estar certa a ganhar dinheiro.

Não quero cometer esse erro.

Também não quero concluir que vender significa manipular. Essa visão parece ser o ressentimento de quem enxerga apenas os maus vendedores.

Uma venda duradoura precisa funcionar para os dois lados.

Se eu convenço alguém a comprar algo que não deveria, talvez consiga uma transação. Provavelmente perco a relação.

Se, ao contrário, consigo identificar uma necessidade real e oferecer alguma coisa que melhora a posição do comprador, posso vender novamente.

Isso introduz uma diferença entre receita e reputação.

A primeira pode ser obtida rapidamente.

A segunda exige repetição sem traição.

Talvez os negócios realmente grandes sejam construídos quando as duas se reforçam.

Você vende.

Entrega.

A pessoa volta.

Indica outra.

A próxima venda custa menos esforço.

Então reputação começa a funcionar como distribuição.

Uma boa reputação coloca você diante de clientes antes de você procurá-los.

Isso talvez seja uma das formas mais interessantes de capital, embora não apareça em conta bancária.

É acumulada lentamente e pode desaparecer rapidamente.

Acho curioso como algumas pessoas gastam décadas tentando parecer importantes quando seria mais eficiente tornar-se útil para as pessoas certas.

Ser conhecido por todos e ser procurado por quem importa são coisas diferentes.

Talvez eu prefira a segunda.

Não tenho interesse especial em ser um vendedor que fala alto, ocupa a sala inteira e faz questão de ser percebido. Esse personagem me parece inseguro. Quando alguém precisa anunciar constantemente que sabe vender, talvez esteja tentando vender a própria imagem antes de qualquer outra coisa.

Prefiro a ideia de conhecer o mecanismo.

Saber perguntar.

Saber esperar.

Entender incentivo.

Perceber quando uma pessoa realmente pode comprar.

Saber quando abandonar uma negociação.

Esse último ponto provavelmente é subestimado.

Venda não é apenas conseguir sim.

É saber onde não desperdiçar tempo.

Tempo também é capital.

Se alguém passa uma semana tentando convencer uma pessoa que nunca compraria, perdeu a oportunidade de falar com quem compraria em cinco minutos.

Talvez uma grande parte da inteligência comercial seja selecionar.

Isso vale para clientes, produtos e até relações.

Nem toda receita é boa receita.

Alguns clientes pagam e custam mais do que pagaram.

Algumas vendas destroem margem.

Alguns contratos prendem a empresa em obrigações ruins.

A obsessão cega por faturamento pode ser tão perigosa quanto a incapacidade de vender.

Ainda assim, entre os defeitos possíveis, eu preferiria precisar aprender a selecionar depois de aprender a vender do que possuir todos os filtros do mundo sem conseguir fechar uma operação.

Primeiro é preciso fazer o motor funcionar.

Depois se aprende a não bater o carro.

Tenho 18 anos e certamente há ingenuidade em boa parte do que estou escrevendo. Talvez daqui a alguns anos eu releia e ache simplista dizer que venda é tão importante. Talvez descubra que capital, produto, gestão, tecnologia ou alguma outra coisa é muito mais decisiva.

Mas há uma pergunta que me parece difícil de derrubar:

se ninguém compra, o que sobra?

Uma empresa que não vende pode sobreviver por algum tempo com dinheiro acumulado.

Pode receber investimento.

Pode tomar empréstimo.

Pode convencer outras pessoas a financiar suas perdas.

Mas em algum momento precisa haver alguém pagando voluntariamente pelo que ela oferece, ou o mecanismo termina.

Até negócios sofisticados parecem voltar a isso.

A venda é onde a realidade financeira entra na empresa.

Por isso tenho dificuldade em aceitar o desprezo que algumas pessoas demonstram por vendedores. Talvez seja uma espécie de defesa de status. É mais agradável imaginar que o mundo remunera credenciais, profundidade intelectual ou dificuldade técnica. Assim, cada pessoa consegue posicionar sua própria especialidade como superior.

O dinheiro é menos educado.

Ele vai para quem consegue capturá-lo dentro de uma troca.

Pode ser um cientista extraordinário.

Pode ser um comerciante comum.

Pode ser alguém que conhece o cliente melhor do que todos.

Não há aristocracia automática no mercado.

Talvez exista uma lição pessoal nisso.

Se algum dia eu perder tudo, o que gostaria de conservar?

Um imóvel pode ser tomado.

Dinheiro pode ser perdido.

Um emprego acaba.

Uma empresa quebra.

Um mercado desaparece.

Conhecimento técnico também pode envelhecer.

Mas algumas habilidades parecem transportáveis.

Saber ler pessoas.

Saber negociar.

Saber criar confiança.

Saber identificar necessidade.

Saber apresentar valor.

Saber pedir uma decisão.

Se eu conservar isso, talvez consiga reconstruir.

Essa é a razão pela qual começo a achar que quem sabe vender nunca fica completamente sem dinheiro.

Não porque venda garanta riqueza.

Não garante.

Nada garante.

A vida é cheia de maneiras de perder dinheiro, saúde, tempo e reputação. Basta um erro suficientemente grande para destruir anos de acertos. Quem acredita que possui alguma habilidade infalível provavelmente está apenas esperando um acidente que ainda não aconteceu.

Mas vender parece aumentar o número de caminhos disponíveis.

Quem depende de uma única profissão possui uma porta.

Quem sabe vender talvez consiga encontrar outras.

O produto muda.

O cliente muda.

A cidade muda.

A economia muda.

A capacidade de descobrir o que alguém quer e construir uma troca continua útil.

Talvez seja essa a ideia que quero guardar.

Não me interessa ser “vendedor” como identidade.

Identidades são perigosas quando começam a limitar o que uma pessoa consegue enxergar. Quero entender venda como mecanismo.

Talvez amanhã eu venda imóveis.

Talvez outra coisa.

Talvez algum dia eu perceba que aquilo que mais vale a pena vender não é uma coisa física.

Não sei.

Hoje ainda estou tentando entender a primeira camada.

E a primeira camada parece ser esta: antes de perguntar qual negócio devo construir, talvez eu deva perguntar qual posição quero ocupar dentro de uma transação.

Quero ser o sujeito que fabrica algo e espera que alguém venha buscar?

Quero ser aquele que conhece quem compra?

Quero controlar a prateleira?

Quero aproximar os dois?

Não tenho resposta.

Mas agora sei que essas posições não são economicamente iguais.

A notícia da Apple talvez desapareça amanhã. Talvez daqui a alguns meses todo mundo esteja falando de outra coisa. Isso pouco importa para a conclusão.

Em três dias, milhões de decisões individuais passaram pelo mesmo lugar.

Centenas de pessoas criaram produtos.

A Apple criou o caminho.

Não sei qual dos aplicativos vai vencer.

Não sei quais empresas vão nascer dessa novidade.

Mas suspeito de que, daqui para frente, quando observar qualquer negócio, vou prestar menos atenção apenas àquilo que está sendo vendido e mais ao caminho que existe entre a coisa e o comprador.

Quem controla esse caminho talvez controle mais do que aparenta.

Durante muito tempo eu achei que enriquecer fosse principalmente acumular algo: conhecimento, patrimônio, estoque, dinheiro.

Agora começo a considerar outra possibilidade.

Talvez enriquecer seja primeiro aprender a ocupar posições.

Uma boa posição permite que valor circule por você.

Um bom produto pode ser substituído.

Uma posição difícil de contornar é outra coisa.

Não sei ainda onde está a melhor delas.

Mas sei qual habilidade parece necessária para encontrá-la.

Venda.

Não aquela versão pequena da palavra, limitada a convencer alguém a comprar alguma coisa hoje.

Venda como capacidade de transformar conhecimento em receita, produto em demanda, atenção em decisão, relação em confiança e confiança em troca.

Se eu aprender isso cedo, talvez o resto possa mudar sem me deixar completamente perdido.

Tenho 18 anos.

É cedo demais para saber o que vou fazer durante a vida.

Talvez seja justamente por isso que eu prefira aprender alguma coisa que não dependa de saber a resposta.

O mundo certamente será diferente.

Os produtos certamente serão diferentes.

Mas alguém continuará querendo alguma coisa que outra pessoa possui.

Quando isso acontecer, haverá espaço entre os dois.

E alguém estará sendo pago para ocupá-lo.

Quero entender como.

Leo Bentier

XThreadsin