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A próxima internet não será uma página, será um galpão cheio de máquinas

O mercado começará a perceber que a internet deixou de ser uma rede de sites e virou uma indústria de escala física.

1 de março de 2009

O homem comum compra a empresa que aparece na tela; o homem atento compra a empresa que impede a tela de apagar.

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Xin

A próxima internet não será uma página, será um galpão cheio de máquinas

O mercado começará a perceber que a internet deixou de ser uma rede de sites e virou uma indústria de escala física.

O mercado ainda está tentando sair dos escombros. Bancos quebraram, crédito evaporou, investidores descobriram que liquidez não é uma propriedade permanente da natureza, e executivos que falavam em inovação passaram a falar em sobrevivência. Em momentos assim, a imaginação coletiva encolhe. Depois de uma crise, quase todo mundo quer comprar o que parece seguro, barato, conhecido, contábil, auditável, domesticado. O capital ferido procura chão. O problema é que as melhores assimetrias costumam nascer exatamente quando o capital está ocupado demais procurando chão para perceber que o terreno está mudando.

Estamos em março de 2009. A internet já venceu culturalmente. Todos sabem disso. E, por todos saberem disso, quase ninguém está mais perguntando o que a internet está se tornando. Essa é a armadilha. Quando uma tese fica consensual, ela troca de forma. O dinheiro grande raramente está na frase "a internet vai crescer". Essa frase já pertence ao passado. A pergunta útil é outra: que tipo de infraestrutura será necessária quando a internet deixar de ser um lugar onde pessoas visitam páginas e passar a ser um sistema permanente de computação, comércio, mídia, armazenamento, comunicação, segurança, software e dados em escala industrial?

A primeira internet foi vendida como experiência. Portais, e-mails, blogs, buscadores, redes sociais, lojas online. O usuário via páginas. O investidor via tráfego. O anunciante via atenção. Mas a segunda internet será menos visível. Ela não terá rosto bonito. Ela será medida em servidores, switches, fibras, racks, metros quadrados, consumo elétrico, latência, refrigeração, largura de banda, redundância, semicondutores, contratos de colocation, interconexão e capacidade de mover dados sem colapsar.

A primeira internet parecia leve porque o usuário final não via o peso. A segunda internet fará fortuna exatamente porque esse peso não desaparece. Ele apenas muda de dono.

O erro do mercado será continuar chamando isso de "internet". A palavra ficou pequena demais. O próximo ciclo não será internet. Será infraestrutura para computação em escala. A diferença parece semântica, mas não é. Internet é o que o consumidor percebe. Computação em escala é o que permite que milhares de empresas entreguem software, vídeo, busca, pagamentos, redes sociais, comércio e serviços sem possuir cada máquina que usam. Internet é superfície. Escala é subsolo.

Nvidia e AMD entram nessa história como empresas óbvias, mas ainda não pelo motivo que a multidão costuma imaginar. Em 2009, a maioria olhará para elas pela lente de PCs, games, ciclos de semicondutores, placas gráficas, notebooks e competição tradicional. Isso importa, mas não basta. O ponto maior é que qualquer economia que passe a depender de computação abundante acabará pressionando toda a pilha de processamento. CPU, GPU, aceleradores, memória, rede, armazenamento. Quando a demanda por computação deixa de ser episódica e passa a ser permanente, os fornecedores de capacidade deixam de ser cíclicos comuns e começam a tocar um nervo mais profundo da economia digital.

Mas o lugar mais interessante talvez não esteja no chip mais comentado. Talvez esteja no caminho entre um servidor e outro.

O investidor vulgar pensa em computação como se cada máquina trabalhasse sozinha. Essa imagem é antiga. A próxima internet será uma máquina distribuída. O valor não estará apenas em processar. Estará em coordenar. Em mover dados. Em reduzir latência. Em impedir congestionamento. Em conectar milhares de servidores como se fossem partes de um organismo. Em fazer com que falhas locais não derrubem sistemas inteiros. Em permitir que nuvens privadas, nuvens públicas, provedores, clientes corporativos e redes se encontrem com velocidade e segurança suficientes para que ninguém perceba o esforço.

Arista talvez seja um nome ainda discreto para muitos. Mas a categoria que ela representa é enorme: networking para data centers modernos. Se a computação em escala cresce, a rede interna dos data centers deixa de ser encanamento secundário e passa a ser sistema circulatório. A máquina não é apenas o servidor. A máquina é o conjunto coordenado de servidores. E um conjunto coordenado depende de comunicação. O mercado gosta de processadores porque processadores parecem cérebro. Mas cérebros morrem sem circulação.

Talvez em 2014, se uma empresa como Arista vier ao mercado público, os analistas tentem explicá-la como fabricante de switches. Essa descrição será tecnicamente aceitável e estrategicamente pobre. Switch é o objeto. A tese é outra: se os data centers de grande escala forem redesenhados para nuvem, software, baixa latência, automação e tráfego massivo entre máquinas, uma nova classe de infraestrutura de rede será necessária. Nesse caso, Arista não venderia apenas caixas. Venderia a capacidade de tornar data centers programáveis, escaláveis e menos frágeis.

O investidor precisa tomar cuidado com palavras pequenas. "Switch" é uma palavra pequena. "Roteador" é pequena. "Colocation" é pequena. "Data center" parece concreto alugado com ar-condicionado. São palavras feias, industriais, sem charme. E por isso mesmo podem carregar lucro. O mercado prefere palavras que permitem sonhos. Mas palavras técnicas, quando estão no gargalo certo, permitem margens.

Equinix representa outro pedaço dessa tese. O que parece um negócio de data center pode ser, na prática, um mercado de proximidade. Em infraestrutura digital, distância não é abstração. Distância vira latência. Latência vira experiência. Experiência vira receita, churn, arbitragem, velocidade, risco ou perda. Empresas não querem apenas colocar servidores em algum lugar. Elas querem estar perto de redes, clientes, parceiros, provedores de nuvem, bolsas, operadoras, fornecedores e ecossistemas. Um bom data center não é só imóvel. É endereço dentro de uma topologia econômica.

Isso muda a lente. O investidor imobiliário comum pergunta: qual é a taxa de ocupação? O investidor de infraestrutura digital pergunta: quem precisa estar conectado a quem, com que latência, com que redundância e com que custo de troca? Equinix não deve ser analisada apenas como metros quadrados energizados. Deve ser analisada como uma praça de interconexão. A diferença é brutal. Imóvel vazio é custo. Interconexão densa é rede. E rede boa tende a ficar melhor quando mais participantes entram.

Digital Realty entra por um caminho complementar. A economia de nuvem, software, mídia e dados vai exigir escala física. Alguém precisa construir, financiar, operar e expandir os lugares onde a computação mora. O romantismo digital sempre tenta vender a ideia de que bits não ocupam espaço. É mentira. Bits precisam de máquinas. Máquinas precisam de energia. Energia precisa de contratos. Calor precisa sair. Segurança precisa entrar. Terreno precisa ser escolhido. Capital precisa ser levantado. Capacidade precisa ser entregue antes que a demanda exploda. Quando o mundo finge que a tecnologia é imaterial, o dinheiro esperto compra os ativos que provam o contrário.

Broadcom é a peça mais subterrânea. Ela não precisa ser amada pelo público para ser necessária. Semicondutores de conectividade, infraestrutura cabeada, chips para rede, comunicação e equipamentos empresariais podem parecer distantes demais da narrativa elegante. Mas a computação em escala não vive apenas de processadores centrais. Ela vive de movimento. Cada salto de dados tem custo, limitação, atraso, consumo, calor e dependência de hardware. A pilha inteira precisa melhorar. O investidor que olha apenas para a empresa que aparece na capa perde os fornecedores que cobram pedágio dentro da máquina.

Aqui está a grande mudança: o valor da internet migrará do site para o sistema. Nos anos anteriores, era razoável perguntar quem venceria em busca, comércio eletrônico, publicidade, redes sociais e software. Essas perguntas continuam importantes. Mas, a partir de agora, uma pergunta mais profunda cresce por baixo delas: quem fornece a infraestrutura comum a todos os vencedores? Quem lucra se há mais vídeo, mais SaaS, mais cloud, mais dados, mais mobile, mais transações, mais segurança, mais backup, mais streaming, mais mensagens, mais computação científica, mais automação, mais inteligência artificial no futuro?

O investidor deve procurar negócios que ganham com o aumento de complexidade, não apenas com uma aplicação específica. Aplicações morrem. A complexidade permanece.

Essa é a diferença entre comprar moda e comprar encanamento. A moda precisa continuar interessante. O encanamento só precisa continuar necessário.

Talvez o mercado acorde para parte disso em algum momento de 2014. Talvez a abertura de capital de uma empresa de cloud networking funcione como sinal visível de uma mudança já em curso. Não porque uma empresa específica explique tudo, mas porque mercados públicos às vezes transformam fenômenos técnicos em categorias investíveis. Antes disso, a tese vive espalhada: crescimento de nuvem, expansão de data centers, mais tráfego, mais software entregue pela internet, mais vídeo, mais mobilidade, mais empresas terceirizando infraestrutura. Depois, o mercado começa a dizer: "há uma categoria aqui".

Quando o mercado dá nome a uma categoria, ele reduz o desconto de ignorância. O melhor retorno costuma estar antes desse batismo.

O leitor pode lucrar de algumas formas.

A primeira é deixar de procurar apenas a próxima aplicação de internet. Essa é a obsessão do investidor que quer parecer moderno. Toda geração procura o aplicativo vencedor. Mas os aplicativos vencedores costumam ficar evidentes cedo demais ou morrer cedo demais. A infraestrutura que serve vários aplicativos pode ser menos glamourosa, mas carrega uma vantagem: não precisa saber exatamente qual comportamento humano vai vencer. Basta saber que haverá mais dados, mais tráfego e mais computação.

A segunda é montar uma leitura por camadas. Em cima, software e consumo. No meio, nuvem, plataformas, sistemas operacionais, bancos de dados, segurança. Embaixo, semicondutores, rede, data centers, energia e interconexão. Quando todo mundo discute a camada de cima, procure pressão na camada de baixo. Margem aparece onde a demanda chega antes da capacidade.

A terceira é entender que infraestrutura digital pode ter características de monopólio local, rede e escala. Nem todo data center é igual. Nem toda rede é igual. Nem todo fornecedor de chip é substituível. Nem todo software de rede é commodity. O mercado adora dizer que hardware vira commodity. Às vezes vira. Mas, em sistemas complexos, o hardware certo, no lugar certo, com software certo e cliente certo, vira dependência.

A quarta é observar sinais de capex. Se empresas de internet, nuvem e software começam a gastar cada vez mais em infraestrutura, alguém está recebendo esse dinheiro. A multidão geralmente celebra o crescimento da empresa que gasta. O investidor mais frio pergunta quem está do outro lado da nota fiscal.

Essa pergunta é ofensiva para o romântico. Mas útil.

O romântico quer comprar visão. O operador quer comprar orçamento.

A contratese também precisa ser respeitada. Infraestrutura é intensiva em capital. Data centers podem sofrer com excesso de oferta. Empresas podem construir antes da demanda real. Alavancagem pode punir REITs e operadores imobiliários. Energia pode ficar cara. Clientes grandes podem pressionar preço. Networking pode sofrer competição brutal. Semicondutores podem ser cíclicos. Nvidia e AMD podem ser arrastadas por ciclos de PCs, consoles, inventários e margens comprimidas. Arista, se surgir como empresa pública, pode enfrentar gigantes com canais maiores. Broadcom pode depender de ciclos de equipamentos. Equinix e Digital Realty podem parecer seguras até o custo de capital mudar.

Quem ignora o risco em infraestrutura não entendeu infraestrutura. Ativos pesados amplificam tanto a demanda quanto o erro. Construir cedo demais é quase tão ruim quanto construir tarde demais. A diferença entre visão e imprudência é utilização.

Mas o ponto central permanece. Depois da crise de 2008, o mundo não vai ficar menor. Ele vai ficar mais digital, mais interconectado, mais dependente de sistemas remotos, mais viciado em disponibilidade e menos tolerante a lentidão. A recessão pode atrasar investimentos, mas não elimina a direção. Crises limpam excesso, não revogam necessidades estruturais.

O mundo corporativo aprendeu a terceirizar fábrica. Agora começará a terceirizar computação. Primeiro por custo. Depois por flexibilidade. Depois por velocidade. Depois porque manter tudo internamente será uma forma cara de nostalgia.

Quando empresas entregam software pela internet, elas precisam de infraestrutura. Quando consumidores assistem vídeo, precisam de infraestrutura. Quando bancos fazem transações em milissegundos, precisam de infraestrutura. Quando redes sociais armazenam fotos, precisam de infraestrutura. Quando governos digitalizam serviços, precisam de infraestrutura. Quando lojas vendem online, precisam de infraestrutura. Quando startups escalam rápido demais para planejar servidores com calma, precisam de infraestrutura. Quando o futuro exigir inteligência artificial, precisará de infraestrutura em escala ainda mais absurda.

A maior ironia da era digital é que ela será vendida como leveza enquanto exige uma base física cada vez mais pesada.

O investidor deve desconfiar de toda tese que trata tecnologia como mágica. Tecnologia boa não elimina a realidade. Ela reorganiza onde a realidade cobra. Se o usuário recebe software instantâneo, alguém pagou pela latência. Se o aplicativo parece infinito, alguém pagou pela capacidade. Se a nuvem parece elástica, alguém construiu folga antes. Se o dado aparece em qualquer lugar, alguém conectou lugares. Se a internet parece invisível, é porque muita infraestrutura visível ficou escondida do consumidor.

O próximo ciclo não será sobre "entrar na internet". Essa frase já ficou velha. O próximo ciclo será sobre tornar a internet capaz de suportar o peso econômico que todos querem colocar nela.

Empresas de aplicação disputarão atenção. Empresas de infraestrutura disputarão necessidade.

Atenção muda de humor.

Necessidade muda mais devagar.

Leo Bentier

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