QE é morfina monetária. Necessária, mas viciante
Uma leitura fria sobre a expansão monetária pós-crise: Estímulo salvava o sistema e distorcia preço de risco.
1 de novembro de 2010
QE é morfina monetária. Necessária, mas viciante
Uma leitura fria sobre a expansão monetária pós-crise: Estímulo salvava o sistema e distorcia preço de risco.
O erro confortável seria chamar a expansão monetária pós-crise de exceção. Exceção é uma palavra usada por quem não quer revisar o modelo mental. Em 2010-11, o sinal mais importante não estava no espetáculo público, mas no mecanismo escondido: incentivos ruins, excesso de confiança, dependência de terceiros e baixa capacidade de correção. O gestor mediano procura culpados depois do impacto; o operador sério pergunta quais regras permitiram que o impacto ficasse invisível por tanto tempo.
A tese que importava era brutal: estímulo salvava o sistema e distorcia preço de risco Isso muda a conversa inteira. Se a empresa depende de sorte macroeconômica, de capital barato, de fornecedor disciplinado, de cliente paciente ou de funcionário heroico, ela não tem operação robusta. Tem uma ficção temporariamente financiada. A maior parte do management falha porque tenta parecer sofisticada antes de ser verdadeira, e a verdade quase sempre começa por uma pergunta desagradável sobre fragilidade, não por uma apresentação bonita.
A morfina tem dois finais possíveis: a alta do paciente ou a dependência dele. O QE salvou o sistema em 2008 e virou rotina em 2010 — e o que era emergência passou a ser tratado como direito adquirido. Estados fazem o mesmo com estímulo fiscal: todo programa nasce temporário e envelhece eterno, porque retirar anestésico dói e a dor tem custo eleitoral. É aqui que o político e o estadista se separam: o político administra o conforto presente; o estadista administra a abstinência necessária. Um país maduro não é o que nunca usa morfina — é o que sabe a hora de parar, com instituições fortes o bastante para segurar a mão de quem quer só mais uma dose. Estímulo sem porta de saída não é política econômica; é vício com diário oficial.
Leo Bentier