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Microsoft: O morto-vivo mais perigoso é aquele que aprende nuvem

O mercado ainda vê Windows velho e PC em declínio, mas Nadella pode estar herdando uma máquina corporativa pronta para virar recorrência, cloud e identidade.

4 de fevereiro de 2014

O mercado precifica o morto-vivo; ninguém precifica o morto-vivo que aprende.

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Microsoft: O morto-vivo mais perigoso é aquele que aprende nuvem

Wall Street gosta de funerais prematuros.

Eles são convenientes. Produzem consenso. Produzem múltiplos baixos. Produzem analistas confiantes dizendo frases como “empresa madura”, “fim do ciclo”, “sem crescimento”, “presa ao legado”. É uma linguagem bonita para esconder preguiça. Quando uma empresa é chamada de velha por tempo suficiente, o mercado para de olhar para os ossos e passa a olhar apenas para as rugas.

Microsoft é chamada de velha.

Isso me interessa.

Hoje Satya Nadella assume a companhia. A imprensa escreverá sobre sucessão. Steve Ballmer sai. Bill Gates se aproxima novamente. Um novo CEO, uma nova carta aos funcionários, uma nova liturgia corporativa. Em geral, essas cerimônias não valem muito. CEOs são frequentemente vendedores de esperança usando crachá institucional. Mas, às vezes, uma troca de comando muda a direção de uma máquina que ainda tem motor.

A Microsoft não está morta. Está mal interpretada.

Há uma diferença.

Uma empresa morta não tem caixa. Microsoft tem. Uma empresa morta não tem distribuição. Microsoft tem. Uma empresa morta não tem clientes presos por rotina, contrato, compatibilidade e medo operacional. Microsoft tem. Uma empresa morta não está presente nos departamentos de TI do mundo inteiro. Microsoft está. Uma empresa morta precisa implorar para entrar na empresa. Microsoft já mora dentro dela.

Esse é o ponto que o mercado parece ignorar.

O investidor comum olha para Microsoft e enxerga Windows. O analista preguiçoso olha para Microsoft e vê PC em declínio. O comentarista elegante olha para Microsoft e ri do Zune, do Windows Phone, do atraso em mobile, da arrogância institucional, da incapacidade de parecer jovem diante da Apple ou interessante diante do Google.

Tudo isso é verdade.

E é exatamente por isso que pode haver assimetria.

A melhor oportunidade raramente aparece como juventude brilhante. Frequentemente aparece como algo feio, cansado, ridicularizado e ainda essencial. A Microsoft é o cano enferrujado dentro da parede corporativa. Ninguém quer fotografá-lo. Mas tire o cano e o prédio para.

A pergunta não é se Microsoft voltará a ser amada. Amor é caro. A pergunta é se ela pode voltar a ser necessária de uma forma que o mercado ainda não está capitalizando.

Minha resposta provisória é sim.

A tese está na nuvem.

Não na nuvem como palavra de conferência. Não na nuvem como teatro de consultoria. Nuvem virou uma dessas palavras usadas por pessoas que querem parecer técnicas sem entender capacidade, latência, segurança, migração, identidade, compliance, contratos e custo total de propriedade. O idiota vê nuvem e pensa em mágica. O operador vê data center, software, contrato e dependência.

Microsoft não precisa vencer por charme. Precisa vencer por presença.

A AWS é melhor percebida. Talvez seja melhor tecnicamente. Talvez esteja anos à frente em alguns pontos. Mas isso não encerra a tese. Em enterprise, a melhor tecnologia nem sempre vence sozinha. O que vence é o conjunto: confiança, integração, contratos existentes, canal de venda, identidade, suporte, certificações, jurídico, medo de trocar, e a habilidade de fazer o cliente dizer “sim” sem sentir que está apostando a empresa em uma novidade.

Microsoft entende esse labirinto porque ajudou a construí-lo.

Ela já vende para CIOs. Já fala com procurement. Já atravessa jurídico. Já entra em orçamento anual. Já aparece na renovação de contrato. Já tem servidor, banco de dados, Office, Exchange, SharePoint, Active Directory, Windows Server, System Center, SQL Server. A empresa que já controla a porta de entrada não precisa arrombar a casa.

Azure é mais importante do que parece.

Hoje, muitos ainda tratam Azure como um produto atrasado, uma resposta tardia à Amazon. Pode ser. Mas respostas tardias de empresas distribuídas não devem ser desprezadas. A história empresarial é cheia de inventores que perderam para integradores. O primeiro a enxergar o futuro nem sempre é o primeiro a monetizá-lo em escala. Às vezes, quem vence é quem chega depois, mas chega carregando a lista de clientes, os contratos, o suporte e a linguagem que o comprador entende.

A Microsoft não precisa convencer o mundo de que a nuvem existe. A Amazon já está fazendo esse trabalho. Microsoft só precisa convencer seus clientes de que a migração pode ser feita sem humilhação.

Este é um tipo de vantagem subestimada: reduzir o medo.

Empresas não compram infraestrutura como adolescentes compram telefones. Elas compram com comitês. Compram com medo de auditoria. Compram com gente demais na sala. Compram com o instinto de não ser culpado se algo quebrar. A frase “ninguém foi demitido por comprar IBM” já pertence a outro século, mas o mecanismo psicológico permanece. Em muitos departamentos de TI, ninguém será demitido por renovar Microsoft.

A próxima Microsoft, se existir, não será uma empresa de caixinhas de software.

Será uma empresa de aluguel.

O mercado ainda olha para Microsoft com a memória do software embalado. Venda uma licença, espere uma atualização, empurre uma nova versão. Esse modelo tem fricção. Assinatura tem anestesia. O cliente deixa de comprar um produto e passa a pagar para não perder continuidade. Office 365 pode parecer uma simples mudança de cobrança. Não é. É uma mudança de poder.

Quando uma empresa transforma software essencial em assinatura, ela troca venda episódica por tributação privada. O cliente não compra Word. Ele paga para permanecer compatível com o mundo. Não compra Excel. Paga para continuar falando a língua das finanças. Não compra Exchange. Paga para não interromper a comunicação interna. Não compra Azure. Paga para não carregar sozinho o peso da infraestrutura.

O varejo gosta de histórias novas. O capital sério gosta de receitas que voltam.

A Microsoft tem a possibilidade rara de converter legado em recorrência. O mesmo legado que hoje recebe desconto pode amanhã receber múltiplo maior. O mesmo Windows que faz o mercado bocejar pode ser ponte para identidade, segurança e gestão. O mesmo Office que parece saturado pode virar porta de entrada para colaboração, armazenamento, compliance e, no futuro, talvez inteligência artificial embutida no fluxo de trabalho.

Ainda não falo de IA como produto investível principal. Em 2014, grande parte da IA ainda vive em laboratórios, papers e promessas. Mas o padrão já é visível: modelos sem distribuição são experiências. Distribuição com modelos vira produto.

Aqui está a parte que o mercado provavelmente não precificará cedo: se a inteligência artificial se tornar uma camada útil de software, ela não será consumida apenas em telas bonitas por consumidores curiosos. Ela será empacotada dentro das ferramentas que as pessoas já usam para escrever, calcular, apresentar, vender, programar, auditar e decidir.

Quem tem distribuição corporativa pode não precisar inventar o futuro. Pode apenas anexá-lo.

Essa é a vantagem da Microsoft.

Ela tem o terreno onde novas ferramentas podem ser instaladas.

A cultura, porém, é o risco.

Nadella precisa fazer algo mais difícil do que criar uma estratégia: precisa matar a religião interna. Empresas dominantes costumam morrer não por falta de inteligência, mas por excesso de lembranças felizes. Elas se apaixonam pelo período em que o cliente não tinha escolha. Confundem canal com direito divino. Confundem margem com merecimento. Confundem legado com destino.

Microsoft tem esse veneno no sangue.

A pergunta é se Nadella entende que a arrogância é um passivo operacional. Pelo que sabemos, ele vem da divisão de cloud e enterprise. Isso importa. Não porque CEOs técnicos sejam santos. Eles não são. Mas porque a nuvem exige humildade diante do uso real. O cliente não quer comprar a visão do fornecedor. Quer resolver capacidade, custo, segurança e escala. A nuvem pune teatro. Ela exige execução contínua.

O Windows Phone provavelmente continuará sendo uma distração cara. O consumidor já escolheu outros deuses. Apple e Google têm o altar móvel. Microsoft pode gastar bilhões tentando comprar relevância no bolso do consumidor, mas o retorno pode ser inferior ao de reforçar sua posição dentro da empresa. Esse é um ponto importante: a Microsoft não precisa vencer todas as guerras. Precisa parar de perder dinheiro tentando parecer jovem em guerras onde sua vantagem estrutural é fraca.

A oportunidade está em aceitar a própria natureza.

Microsoft é uma empresa corporativa. Isso não é insulto. É fortaleza. O mercado gosta de empresas sexy porque sexo vende narrativa. Mas infraestrutura vende dependência.

Eu não quero que Microsoft vire Apple. Eu não quero que Microsoft vire Google. Eu quero que Microsoft pare de pedir desculpas por ser Microsoft.

O que me interessa é simples:

Primeiro, a base instalada é enorme e lenta para sair. Lento, em tecnologia, costuma ser visto como defeito. Em contratos corporativos, pode ser ativo.

Segundo, Office pode migrar para assinatura sem destruir utilidade. Se a transição for bem executada, o mercado terá que parar de tratar a receita como ciclo de licença e começar a tratá-la como anuidade operacional.

Terceiro, Azure não precisa destruir AWS para ser um bom negócio. Em um mercado de cloud grande o suficiente, um segundo colocado forte pode produzir valor extraordinário.

Quarto, a identidade corporativa pode ser a camada invisível. Quem controla login, permissões, diretórios e políticas controla mais do que software. Controla o mecanismo de acesso.

Quinto, a IA futura, se útil, tenderá a favorecer quem tem fluxo de trabalho, dados empresariais, segurança e distribuição. Microsoft tem todos, ainda que o mercado esteja entediado demais para pensar nisso.

O erro seria comprar Microsoft porque ela parece barata.

Coisas baratas podem ficar baratas por vinte anos.

A razão correta para comprar seria outra: o mercado está possivelmente precificando declínio terminal enquanto a empresa pode estar iniciando uma mutação de modelo econômico. O valor não está no múltiplo baixo isolado. Está na possibilidade de o múltiplo baixo estar aplicado ao negócio errado.

Se Microsoft continuar sendo vista como fabricante de software maduro para PCs, o retorno será medíocre. Se for reclassificada como plataforma recorrente de nuvem, produtividade, segurança e identidade corporativa, o mercado terá de usar outra régua.

Essa troca de régua é onde mora o dinheiro.

Como eu me posicionaria?

Não como turista.

Eu não compraria Microsoft como quem compra uma história bonita. Compraria como quem compra um erro de classificação. A operação principal seria long em ações ordinárias, de forma paciente, com tamanho suficiente para importar, mas pequeno o bastante para suportar anos de zombaria. O mercado pode demorar muito para abandonar uma opinião confortável. Uma tese boa, comprada com prazo errado, vira tese ruim.

Eu acumularia nas quedas, especialmente quando a narrativa do PC morto voltasse a dominar. O pessimismo recorrente seria fonte de entrada, não motivo de saída, desde que os sinais de transição continuassem aparecendo: crescimento de Office 365, crescimento de Azure, expansão de receita comercial recorrente, manutenção de margem, redução de obsessão por hardware fracassado e evidência de que Nadella está deslocando a cultura de defesa do Windows para entrega de serviços.

Também consideraria LEAPS, opções de compra de longo prazo, mas apenas como satélite, não como núcleo. O núcleo seria ação. A opção é uma forma de comprar convexidade sobre reprecificação, mas ela carrega um inimigo: calendário. Se o mercado entender a tese em 2017, a opção de 2016 morre correta e inútil. Ser cedo demais é uma forma elegante de estar errado.

Eu não faria uma operação alavancada agressiva. Microsoft não é uma small cap em reestruturação onde o upside compensa a possibilidade de ruína. É uma máquina grande, lenta e mal avaliada. O ganho viria de reclassificação gradual, recomposição de múltiplo e crescimento recorrente, não de explosão especulativa imediata.

Eu evitaria shortar Amazon contra Microsoft. Isso seria vaidade. AWS pode estar certa e Microsoft também. Mercados grandes permitem mais de um vencedor. O investidor que precisa transformar toda tese long em duelo moral geralmente revela insegurança intelectual. A melhor tese não exige que o concorrente morra. Exige apenas que o mercado tenha subestimado o sobrevivente.

Uma estrutura mais sofisticada poderia ser long Microsoft contra uma cesta de software de crescimento excessivamente valorizado, especialmente empresas vendidas como inevitáveis sem distribuição comparável. Mas esse hedge precisa ser feito com cuidado. O mercado pode pagar insanamente caro por crescimento durante mais tempo do que o investidor cético suporta. Short de narrativa é uma atividade que frequentemente pune quem está certo antes de premiá-lo.

Portanto, a operação limpa é esta: comprar Microsoft como plataforma de recorrência mal precificada, carregar enquanto a evidência melhora, e não vender apenas porque o papel deixou de parecer morto. Empresas que deixam de ser tratadas como cadáveres não são reprecificadas em um dia. Primeiro o mercado para de rir. Depois começa a revisar modelos. Depois inventa uma nova palavra para fingir que sempre entendeu.

O maior risco não é tecnológico.

É psicológico.

O risco é Microsoft continuar acreditando que o passado lhe deve obediência. O risco é Nadella falar em nuvem enquanto a organização continua defendendo feudos. O risco é a empresa transformar Azure em apêndice, Office 365 em embalagem e IA futura em demonstração de palco. O risco é confundir distribuição com inevitabilidade.

Nada é inevitável.

Mas há momentos em que o mercado observa uma empresa velha e vê decadência, enquanto por dentro ela ainda possui os componentes de uma segunda vida.

Microsoft pode ser esse caso.

O morto-vivo mais perigoso não é aquele que caminha lentamente.

É aquele que aprende.

Leo Bentier

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