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Bolsonaro é menos candidato que sentença

Quando o povo perde fé nos juízes, elege um réu simbólico para condenar todos os outros.

28 de outubro de 2018

Bolsonaro é menos candidato que sentença

Quando o povo perde fé nos juízes, elege um réu simbólico para condenar todos os outros.

Bolsonaro vence Fernando Haddad e chega à presidência apoiado por antipetismo, segurança pública, redes sociais, conservadorismo e colapso de confiança nos partidos tradicionais. Um leitor apressado chamaria isso de notícia. Uma carta séria chamaria de sinal. A diferença entre notícia e sinal é que a notícia informa o que aconteceu; o sinal revela o que poderá se repetir com outro nome, outro rosto e outra bandeira. A política é uma máquina de reciclar paixões antigas com vocabulário novo. Quem lê apenas o evento vira refém do calendário. Quem lê o incentivo começa a enxergar o futuro ainda disfarçado de exceção.

A tese seria que Bolsonaro carregava energia destituinte maior que capacidade construtiva; sua força era dizer não ao sistema, não organizar um Estado novo. A tese não nasceria de preferência partidária, mas de uma pergunta mais antiga: que tipo de regime, elite e povo este acontecimento revela? A política pequena pergunta quem ganhou hoje. A política boa pergunta que vício foi premiado, que virtude foi punida e que custo foi empurrado para a próxima geração. É aqui que quase todos erram. O comentarista busca culpados convenientes; o estadista busca mecanismos. O moralista barato aponta o dedo; o moralista sério pergunta por que aquele dedo encontrou tantos cúmplices.

O Brasil e o mundo moderno sofrem de uma mesma doença com sotaques diferentes: a confusão entre forma e substância. Temos eleições, mas nem sempre temos confiança. Temos tribunais, mas nem sempre temos justiça percebida. Temos mercados, mas nem sempre temos responsabilidade. Temos Estado, mas nem sempre temos bem comum. Temos comunicação, mas nem sempre temos verdade. Temos dados, mas nem sempre temos sabedoria. A modernidade multiplicou instrumentos e empobreceu julgamento. O resultado é uma civilização tecnicamente equipada para errar com velocidade.

O que se via nesta data era menos um fato isolado que um deslocamento de placas. A superfície ainda permitiria discursos tranquilos. Sempre permite. Antes das rupturas, ministros garantem normalidade, analistas calculam probabilidades pequenas, jornais escolhem adjetivos moderados e investidores fingem que o risco político cabe em planilha. Mas a história não se move apenas quando há explosão. Ela se move quando os homens importantes passam a mentir de maneira diferente. A mudança de mentira costuma preceder a mudança de regime.

A carta teria tomado cuidado para não cair no vício do profeta barato. Profeta barato quer parecer dono do futuro. O observador sério sabe apenas que certos arranjos são frágeis, certos incentivos apodrecem instituições e certas humilhações acumuladas procuram uma data. Não é preciso prever o raio exato quando se conhece a floresta seca. A vaidade de acertar o dia é inferior à disciplina de reconhecer a madeira inflamável.

Haveria também uma advertência ao leitor brasileiro. O brasileiro gosta de importar explicações estrangeiras sem importar as estruturas que as tornam verdadeiras. Fala de liberalismo sem impessoalidade, de Estado forte sem eficiência, de soberania sem estratégia, de democracia sem perdedores civilizados, de mercado sem concorrência, de conservadorismo sem autocontrole, de progressismo sem responsabilidade fiscal. Por isso o país passa décadas discutindo o vocabulário da grande política enquanto preserva os hábitos da pequena corte.

Cícero teria visto nesse episódio uma pergunta sobre república: a lei serve à cidade ou às facções? Santo Agostinho perguntaria se o poder, separado da justiça, é realmente governo ou apenas uma quadrilha com protocolo. São Tomás lembraria que o bem comum não é soma de apetites privados, mas ordem moral que permite à cidade buscar fins superiores. Marco Aurélio desconfiaria do aplauso, do pânico e da indignação, pois todos são estados emocionais ruins para governar. Churchill procuraria no evento a vontade, não a desculpa. Platão perguntaria que tipo de alma coletiva escolheu este momento.

A previsão, portanto, seria simples e dura. O acontecimento registrado aqui não terminaria em si mesmo. Ele criaria hábito, precedente, ressentimento, arquitetura ou linguagem. O primeiro erro dos observadores seria tratá-lo como ponto final. O segundo seria julgá-lo apenas pelo vencedor imediato. O terceiro seria acreditar que a instituição tocada pelo evento sairia dele igual. Instituições não são prédios; são memórias de comportamento. Quando o comportamento muda, o prédio pode continuar de pé e ainda assim a república já ter trocado de pele.

O acerto posterior viria não porque a carta tivesse bola de cristal, mas porque teria lido a direção da fraqueza. A pandemia, a guerra institucional e a derrota de 2022 revelariam a distância entre catalisar revolta e governar uma república. Em retrospectiva, o ponto essencial seria este: quase todo grande acontecimento político primeiro aparece como anomalia, depois como repetição, depois como doutrina. O erro está em rir da anomalia. A oportunidade está em perguntar por que ela apareceu agora, por que encontrou público e quem ganha com sua normalização.

Há uma diferença entre boa política e torcida. A torcida precisa de inocentes e monstros. A boa política precisa de causas, limites e consequências. A torcida quer absolver os seus e condenar os outros. A boa política pergunta que pecado é comum aos dois lados. A torcida chama prudência de covardia quando está vencendo e de perseguição quando está perdendo. A boa política sabe que toda facção, quando se acredita redentora, começa a ensaiar pequenas tiranias.

Por isso esta carta não pediria conforto ao leitor. Pediria maturidade. O mundo não é governado por intenções declaradas, mas por incentivos tolerados. Uma elite pode falar de democracia enquanto despreza o povo. Um povo pode falar de liberdade enquanto deseja vingança. Um mercado pode falar de eficiência enquanto pede socorro público. Um Estado pode falar de justiça enquanto amplia seu próprio apetite. Uma potência pode falar de ordem enquanto cerca rivais. Um rival pode falar de segurança enquanto prepara agressão.

O leitor que desejasse entender o futuro deveria abandonar a superstição dos nomes próprios. Nomes importam, mas menos que mecanismos. O homem passa; o incentivo fica. O partido muda; o método permanece. A crise termina; a fragilidade aprendida se desloca. O mundo moderno é uma escola de disfarces. Quem se apega ao disfarce sempre chega tarde.

O fechamento teria sido seco, porque carta boa não termina pedindo concordância. Termina deixando um incômodo útil.

Quando o povo perde fé nos juízes, elege um réu simbólico para condenar todos os outros.

Leo Bentier

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