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Palantir: O software mais valioso é aquele que o Estado aprende a não desligar

Palantir não parece SaaS limpo; parece uma prótese cognitiva para instituições que tomam decisões caras.

30 de setembro de 2020

O software vira infraestrutura no dia em que o Estado aprende que não pode desligá-lo.

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Palantir: O software mais valioso é aquele que o Estado aprende a não desligar

Hoje Palantir começa a negociar na bolsa.

Não há procissão de banqueiros na frente. Não há o teatro completo do IPO tradicional, com suas salas acarpetadas, seus gráficos cuidadosamente inclinados para cima e seus analistas usando matemática como incenso. Há uma direct listing. Mais seca. Mais bruta. Mais apropriada.

Palantir não é uma empresa bonita. Isso é a primeira coisa que gosto nela.

Empresas bonitas são vendidas a pessoas bonitas por bancos bonitos usando palavras bonitas. Palantir chega ao mercado parecendo um arquivo confidencial que alguém deixou cair no chão. Defesa. Inteligência. Fraude. Contratos públicos. Dados quebrados. Agências que não explicam tudo o que fazem. Clientes que não podem simplesmente “testar outro fornecedor” porque o custo de testar outro fornecedor é, em alguns casos, falhar em uma missão.

Wall Street gosta de software limpo. Receita recorrente, vendas previsíveis, onboarding em trinta minutos, interface agradável, CAC, LTV, NRR, ARR e todas as siglas que fazem adultos educados parecerem sacerdotes de um culto infantil. Palantir não entra nessa caixa. O mercado perguntará: “Isso é SaaS?” A resposta correta é: provavelmente não no sentido em que os vendedores de SaaS querem que seja.

A pergunta melhor é outra: isto se torna desligável depois que entra?

Software comum melhora uma planilha. Software importante melhora um processo. Software crítico muda a forma como uma instituição enxerga a realidade. Quando uma organização passa a tomar decisões difíceis por meio de uma camada de software, essa camada deixa de ser ferramenta. Torna-se prótese cognitiva.

A maioria das empresas vende software para o orçamento de tecnologia.

Palantir vende software para o orçamento do medo.

Isso faz diferença.

Um banco compra CRM porque quer vender melhor. Um varejista compra software porque quer controlar estoque. Um governo compra Palantir porque tem dados demais, tempo de menos, inimigos demais, responsabilidades demais e tolerância pequena para parecer cego. A decisão errada custa carreira, orçamento, reputação e, em alguns casos, vidas. Nesses ambientes, a beleza da interface vale menos do que a capacidade de transformar fragmentos em julgamento.

O investidor treinado para procurar elegância contábil vai torcer o nariz. Ele verá perdas. Verá contratos complicados. Verá concentração. Verá dependência de governo. Verá política. Verá controvérsia. Verá margem pressionada por implantação. Verá uma empresa de software que parece carregar o peso de uma consultoria. Ele chamará isso de defeito.

Eu chamaria de preço de entrada.

Não se entra nos sistemas nervosos de governos e grandes instituições vendendo uma assinatura mensal com botão de cancelamento. Entra-se por dor. Entra-se por missão. Entra-se por integração profunda. Entra-se quando o cliente já tentou conviver com seus próprios bancos de dados, seus próprios departamentos, seus próprios fornecedores e sua própria burocracia, e descobriu que a realidade não respeita organogramas.

Dados não se organizam porque um diretor mandou. Dados apodrecem. Eles se duplicam, se contradizem, se escondem, envelhecem e viram munição de departamentos rivais. Toda grande instituição é uma guerra civil de bancos de dados. Palantir vende uma trégua armada.

É por isso que a análise superficial errará.

O mercado vai tentar decidir se Palantir é uma empresa de software, uma consultoria, uma empresa de defesa, uma empresa de dados, uma empresa de inteligência artificial ou uma criatura política do Vale do Silício. Essa confusão poderá manter o preço errado por algum tempo. Confusão é útil quando se compra. Clareza pública costuma chegar tarde e cara.

A tese não depende de inteligência artificial como moda. A IA será o nome elegante que os jornais usarão depois. O ponto é anterior. O ponto é decisão.

Quando a decisão é barata, o software vira commodity. Quando a decisão é cara, o software vira infraestrutura.

Palantir opera onde a decisão é cara.

Um soldado mal informado não é um usuário insatisfeito. Um hospital descoordenado não é um churn em dashboard. Uma agência incapaz de detectar fraude não é uma métrica trimestral triste. Uma empresa industrial que não entende sua cadeia de suprimentos não precisa de mais um aplicativo bonito. Precisa de uma forma de ver.

Essa é a frase.

Palantir vende uma forma de ver.

E formas de ver, quando adotadas por instituições grandes, não são trocadas com facilidade. Uma organização muda de software quando o software é periférico. Ela hesita quando o software está conectado ao modo como investiga, decide, prioriza, responde e justifica suas decisões. O fornecedor, nesse ponto, deixa de estar fora da instituição. Ele passa a estar parcialmente dentro dela.

O Estado, em especial, é uma criatura lenta para adotar e ainda mais lenta para desligar.

Isso assusta os moralistas de salão, e com razão parcial. Há sempre risco quando tecnologia e poder público se misturam. Dados, vigilância, segurança, fronteiras, guerra, polícia, saúde pública, tudo isso exige escrutínio. O investidor que ignora esse risco é um idiota. O investidor que só vê esse risco também é um idiota. A questão não é se Palantir será controversa. Será. A questão é se a controvérsia impedirá o entranhamento ou se, ironicamente, o confirmará.

Muitas empresas morrem por irrelevância. Palantir dificilmente sofrerá esse tipo de morte. Seu risco é outro: excesso de importância política, não ausência de utilidade.

Isso muda o perfil da operação.

Eu não compraria Palantir como quem compra um “IPO quente”. Essa é a maneira dos tolos. Eles chegam no primeiro dia, compram a excitação, chamam volatilidade de tese e depois culpam o mercado por sua própria indisciplina. Também não venderia a descoberto apenas porque a empresa é cara em métricas tradicionais. Métrica tradicional aplicada ao objeto errado vira superstição com calculadora.

Se eu fosse me posicionar, faria de modo pequeno, feio e paciente.

A operação adequada seria uma posição comprada em ações ordinárias, não em opções curtas. Opções exigem que o tempo obedeça ao investidor. O tempo raramente obedece. A tese de Palantir, se correta, será lenta no começo, depois óbvia de repente. O mercado pode passar meses ou anos chamando dependência operacional de baixa qualidade de receita. Depois, no momento em que a palavra “IA” ou “infraestrutura crítica” virar consenso, os mesmos homens que rejeitaram a empresa por ser complicada comprarão a ação por ser inevitável.

Eu começaria com tamanho pequeno, talvez uma posição inicial que pudesse sobreviver a uma queda grande sem produzir estupidez emocional. Não se coloca capital sério em uma empresa recém-listada apenas porque a tese é intelectualmente atraente. O preço ainda será descoberto por pessoas que não sabem o que estão comprando e por funcionários que talvez queiram vender. Uma direct listing transfere parte do teatro para o mercado aberto. O investidor paciente deve usar isso a seu favor.

A melhor entrada não é necessariamente o primeiro preço. É o primeiro momento em que o mercado confunde volatilidade com refutação.

Compraria em tranches. Aumentaria apenas se a empresa provasse três coisas: retenção institucional, expansão em clientes existentes e melhora na economia de implantação. Se Palantir continuar parecendo apenas uma consultoria pesada vendida com verniz de software, a tese enfraquece. Se cada cliente importante passar a usar mais módulos, mais dados e mais decisões dentro da plataforma, a tese melhora. O segredo não estará em quantos clientes entram. Estará em quantos passam a não conseguir sair.

Eu não buscaria confirmação em manchetes. Manchetes chegam para explicar o que o preço já fez. Eu buscaria sinais de dependência. Renovações. Expansões. Contratos de longa duração. Uso em áreas críticas. Migração de cliente governamental para cliente comercial. A mesma lógica que começa em defesa pode terminar em manufatura, saúde, energia, bancos, logística e qualquer lugar onde dados ruins custem dinheiro real.

O maior erro será olhar para Palantir como se ela precisasse agradar o consumidor.

Ela não precisa.

Empresas verdadeiramente entranhadas não precisam ser amadas. Precisam ser necessárias. Há uma diferença moral, estética e financeira entre amor e necessidade. O amor é volátil. A necessidade renova contrato.

O mercado americano está cheio de empresas tentando parecer inevitáveis. Palantir talvez seja uma das poucas tentando parecer menor do que o problema que resolve. Isso é incomum. O problema é feio: instituições grandes não conseguem pensar com os próprios dados. A solução também será feia: integração, implantação, política interna, treinamento, resistência, camadas de permissão, auditoria, segurança, disputa de poder. O investidor que quer pureza deveria comprar uma história, não uma empresa.

Eu prefiro empresas que sujam as mãos.

Não ignoro os riscos. O governo pode mudar de humor. O cliente público pode atrasar. A opinião pública pode pressionar. A concorrência pode copiar partes do discurso. Grandes provedores de nuvem podem tentar absorver parte do valor. A empresa pode pagar pessoas demais em ações. A administração pode acreditar demais em sua própria missão e esquecer o acionista. O valuation pode começar alto o suficiente para transformar uma boa empresa em um mau investimento.

Esse último ponto é crucial.

Empresa extraordinária não é sinônimo de preço aceitável. Essa frase deveria ser escrita na porta de toda corretora. O investidor não é pago para reconhecer grandeza. Ele é pago para comprar grandeza com desconto ou, pelo menos, com assimetria. Se Palantir for precificada como religião antes de provar economia, eu espero. Se for precificada como contratada governamental problemática enquanto constrói infraestrutura decisória, eu compro.

A linha é fina.

Eu não quero possuir a narrativa. Quero possuir o desajuste entre narrativa e realidade. Hoje, a narrativa será confusa: empresa secreta, empresa política, empresa de Peter Thiel, empresa de governo, empresa controversa, empresa cara, empresa sem lucros claros, empresa difícil. Tudo isso pode ser verdade. Mas a realidade talvez seja mais simples: Palantir está tentando se tornar o sistema operacional de decisões complexas.

Quando o software vira sistema operacional de uma instituição, o preço deixa de ser apenas múltiplo de receita. Passa a incorporar custo de remoção.

A maioria dos analistas calcula o que o cliente paga.

Poucos calculam o que o cliente sofreria para parar de pagar.

É aí que mora a assimetria.

Se eu estiver errado, a empresa será uma consultoria glorificada com narrativa excessiva e ações demais no mercado. Nesse caso, o capital deve ser pequeno o bastante para que o erro seja apenas instrutivo. Se eu estiver certo, o mercado passará anos corrigindo sua definição. Primeiro dirá que Palantir é estranha demais. Depois dirá que é política demais. Depois dirá que é cara demais. Por fim, dirá que era óbvia.

O mercado sempre chama de óbvio aquilo que ele recusou quando ainda era barato.

Não há santidade aqui. Não há recomendação moral. Há apenas uma observação fria: o software mais valioso não é aquele que encanta o usuário. É aquele que se torna caro demais para desligar.

Palantir pode estar tentando construir exatamente isso.

E, se conseguir, o investidor que esperava um SaaS bonito terá perdido a oportunidade porque ficou procurando simetria em um lugar onde a vantagem nasceu da feiura.

Eu compraria pouco. Compraria devagar. Compraria apenas aquilo que eu pudesse ver cair sem precisar vender. E observaria uma única pergunta, repetida a cada trimestre:

o cliente está apenas usando Palantir, ou está aprendendo a pensar por meio dela?

A diferença entre as duas respostas pode ser a diferença entre uma ação especulativa e uma infraestrutura de poder.

Leo Bentier

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