2007 foi o aviso. 2008 vai ser a conta.
O que aconteceu este ano não foi uma crise. Foi um diagnóstico. A crise é o que vem quando o sistema precisa ajustar o preço de ativos avaliados errado por tempo suficiente para que a ilusão virasse pressuposto.
20 de dezembro de 2007
2007 foi o aviso. 2008 vai ser a conta.
O que aconteceu este ano não foi uma crise. Foi um diagnóstico. A crise é o que vem quando o sistema precisa ajustar o preço de ativos avaliados errado por tempo suficiente para que a ilusão virasse pressuposto.
Em janeiro de 2007, o mercado financeiro estava em um dos ciclos de expansão mais longos da história. Crédito barato, volatilidade baixa, ativos valorizando em múltiplas classes simultaneamente. Os problemas existiam — estavam visíveis para quem quisesse olhar — mas o consenso os categorizava como riscos gerenciáveis, circunscritos, sem poder de contágio sistêmico. Doze meses depois, o sistema de crédito que financiou essa expansão está funcionando com spreads e restrições que não existiam há uma década. O diagnóstico de 2007 é claro: o modelo estava errado desde a fundação.
O que 2007 revelou, mês a mês, foi a anatomia de um sistema que havia transferido risco para onde era invisível. New Century mostrou que originadores de hipotecas não tinham incentivo para qualificar tomadores. Bear Stearns mostrou que instrumentos estruturados valiam menos do que os ratings indicavam. BNP mostrou que o contágio não precisava de um banco grande quebrando — bastava incerteza sobre quem tinha o quê. Northern Rock mostrou que modelos de captação que funcionam em mercados normais entram em colapso quando o mercado para de ser normal. E o Dow Jones em outubro mostrou que o mercado de ações pode continuar como se nada fosse relevante por mais tempo do que qualquer pessoa racional esperaria.
2008 vai ser o momento em que o ajuste que 2007 anunciou se torna inevitável. Não sei quando vai acontecer, não sei qual evento vai ser o gatilho, não sei qual instituição vai ser a primeira a precisar de resgate explícito. Mas o mecanismo é claro: há ativos em balanços de instituições financeiras no mundo inteiro que estão sendo carregados a valores que dependem de condições de mercado que já não existem. Quando esses ativos precisarem ser precificados a mercado — por escolha, por pressão regulatória ou por necessidade de liquidez — o ajuste vai ser concentrado e rápido. 2007 foi o ano em que ficou evidente que o sistema estava errado. 2008 vai ser o ano em que o sistema vai descobrir quanto a correção custa.
Leo Bentier