O colapso da New Century não é surpresa. É a lógica do sistema funcionando.
Quando o risco é removido de quem o cria, ele não desaparece. Ele se acumula onde ninguém quer olhar.
15 de março de 2007
O colapso da New Century não é surpresa. É a lógica do sistema funcionando.
Quando o risco é removido de quem o cria, ele não desaparece. Ele se acumula onde ninguém quer olhar.
A New Century Financial pediu falência esta semana. É o maior originador de hipotecas subprime dos Estados Unidos. O mercado está reagindo como se isso fosse um evento isolado — um player com práticas ruins que encontrou o resultado natural das suas más decisões. Não é. É o primeiro ponto visível de uma estrutura que distribui risco de formas que tornam invisível quem o carrega.
O modelo de originação e distribuição de hipotecas subprime funciona assim: um banco ou financeira origina um empréstimo de alto risco, empacota com outros em instrumentos securitizados e vende para investidores institucionais. Quem originou não fica com o risco. Quem comprou o instrumento tem exposição ao pool de empréstimos, mas não tem visibilidade sobre a qualidade individual de cada um. O resultado é que o incentivo de quem origina não é qualificar bem o tomador — é originar o máximo volume possível antes de vender. Quando incentivo e risco ficam em lugares diferentes, o sistema produz exatamente o que está acontecendo agora.
O que vai acontecer a seguir depende de quanto desse risco está distribuído em instrumentos que o mercado ainda acredita serem seguros. CDOs de hipotecas subprime estão em carteiras de fundos de pensão, bancos europeus e fundos soberanos que provavelmente não sabem que o risco que compraram é maior do que os ratings indicam. O problema com risco distribuído de forma opaca é que quando ele começa a se manifestar, ninguém sabe onde está. E o mecanismo de contágio não é o crédito diretamente — é a incerteza sobre quem tem o quê.
Leo Bentier