O subprime é só o rato morto; o cheiro vem da casa inteira
Quando a fraude vira modelo de negócio, o colapso não é acidente. É auditoria.
10 de agosto de 2007
O subprime é só o rato morto; o cheiro vem da casa inteira
Quando a fraude vira modelo de negócio, o colapso não é acidente. É auditoria.
Ontem, o mercado recebeu uma notícia que muitos tentarão tratar como técnica: o BNP Paribas suspendeu resgates e cálculo de valor em fundos expostos a crédito estruturado. Antes disso, fundos do Bear Stearns já haviam sido liquidados. A American Home Mortgage já havia quebrado. Os nomes são diferentes, mas o cadáver é o mesmo. O crédito americano apodreceu e começou a feder pelas frestas da matemática.
O investidor comum perguntará: "isso afeta o Brasil?" A pergunta é infantil. Em um mundo alavancado, tudo afeta tudo. A modernidade financeira aboliu a distância sem abolir a consequência. O mesmo sujeito que compra apartamento na Flórida sem renda verificável está conectado ao fundo europeu, ao banco suíço, ao exportador chinês, ao real brasileiro, ao preço do minério, à bolsa de São Paulo, ao humor do banqueiro central e à arrogância do economista que chama isso de diversificação.
Diversificação não elimina sujeira. Apenas espalha sujeira com elegância.
O problema não é uma hipoteca ruim em Nevada. O problema é a máquina moral que transformou fragilidade em produto. Primeiro, emprestaram a quem não deveria tomar. Depois, empacotaram o empréstimo. Depois, fatiaram o pacote. Depois, deram nota alta. Depois, venderam ao mundo. Depois, seguraram parte do lixo no próprio balanço com o conforto de quem acreditava que liquidez é uma lei da natureza.
Não é.
Liquidez é cortesia. E cortesia desaparece quando todos chegam à porta ao mesmo tempo.
A indústria financeira moderna descobriu uma forma sofisticada de praticar uma burrice antiga: emprestar contra esperança e chamar a esperança de risco calculado. A diferença é que agora há planilhas, agências de rating, derivativos, siglas, modelos, apresentações e doutores. A ignorância aprendeu inglês, estatística e PowerPoint.
O mundo não está diante de um erro. Está diante de uma cultura.
Essa cultura tem sacerdotes. São os banqueiros que juram que o risco foi transferido. São os reguladores que fingem que entendem o que autorizaram. São os acadêmicos que acreditam que volatilidade passada mede perigo futuro. São os políticos que adoram crédito barato porque crédito barato compra eleição antes de cobrar a fatura. São os consumidores que confundem aprovação bancária com capacidade moral de pagar. São os investidores que terceirizam juízo para uma nota AAA.
AAA é uma bênção papal emitida por gente que recebe de quem precisa ser abençoado.
O escândalo não é que ativos ruins existam. Sempre existiram. O escândalo é que a civilização financeira construiu templos para escondê-los. O subprime é apenas o nome popular de uma doença mais nobre: a separação entre decisão e consequência.
Quem origina a hipoteca não segura o risco. Quem dá rating não paga o erro. Quem monta o produto cobra taxa antes do desastre. Quem compra o produto não entende. Quem regula chega tarde. Quem resgata usa dinheiro público. Quem sofre não participou da reunião.
Esta é a definição moderna de fragilidade: muitos recebem durante a expansão; poucos decidem durante a crise; todos pagam depois.
A política entrará nisso como sempre entra: com indignação teatral e socorro real. Primeiro, dirão que o mercado falhou. Depois, usarão o Estado para salvar os agentes centrais do mercado. Por fim, escreverão relatórios sobre responsabilidade enquanto preservam a arquitetura da irresponsabilidade. O capitalismo de ganhos privados e perdas socializadas não é capitalismo. É feudalismo com Bloomberg.
Os Estados Unidos têm uma virtude que seus críticos subestimam: capacidade de correção. Mas também têm um vício que seus admiradores ocultam: capacidade de exportar erro como se fosse inovação. Durante anos, Wall Street vendeu ao mundo a ideia de que complexidade era segurança. Não era. Complexidade muitas vezes é apenas opacidade com MBA.
A Europa comprou. A Ásia financiou. Os emergentes celebraram. O investidor de varejo chegou por último, como sempre, segurando uma sacola cheia de produtos que pareciam renda fixa e se comportarão como venture capital escrito por advogado.
O que vem agora?
Não espero o fim do mundo. O mundo raramente acaba. Ele apenas troca seus credores. Mas espero uma reprecificação da confiança. Bancos deixarão de confiar em bancos. Fundos deixarão de confiar em preços. Investidores deixarão de confiar em liquidez. Bancos centrais descobrirão que seus instrumentos foram desenhados para incêndios menores. A política descobrirá que os contribuintes são sempre os sócios silenciosos de última instância.
Haverá negação. Sempre há. Dirão que está contido. Essa palavra deveria ser proibida em crises financeiras. "Contido" é o que autoridades dizem quando ainda não sabem medir o vazamento. Dirão que os fundamentos são sólidos. Fundamento sólido é exatamente o tipo de frase que precede o som de vidro quebrando.
O Brasil olhará para isso com certo orgulho provinciano. Dirá que seus bancos são sólidos, que suas reservas cresceram, que sua regulação é melhor, que seu mercado imobiliário não reproduz o americano. Parte disso será verdade. Mas a verdade parcial é o narcótico preferido de países emergentes.
O Brasil pode não ter subprime americano. Tem outra coisa: dependência externa disfarçada de autonomia. Se o mundo cortar risco, o preço das commodities sente. Se commodities sentem, a arrecadação sente. Se arrecadação sente, o pacto político sente. Se crédito global sente, o real sente. Se o real sente, inflação e juros voltam ao centro da mesa. Nada disso precisa acontecer em linha reta. Crises não obedecem roteiro; elas obedecem interconexões.
A pergunta que importa não é onde está o primeiro incêndio. É onde há material inflamável.
E há material inflamável demais.
O século XX ensinou que Estados podem quebrar por guerra. O século XXI talvez ensine que Estados podem ajoelhar por balanços que ninguém leu. A guerra antiga exigia cavalaria, tanques, trincheiras, fronteiras e sangue visível. A guerra financeira exige duration, spread, contraparte, haircut, modelo e silêncio.
O leigo acha que paz é ausência de tiro. Não é. Paz é a manutenção invisível de confiança. Quando confiança evapora, a guerra começa sem uniforme.
Há aqui uma lição moral, e ela é antiga. Cícero teria reconhecido o vício: quando a república se curva aos interesses dos homens ricos e chama isso de estabilidade. Santo Agostinho teria perguntado se o sistema financeiro, sem justiça, é diferente de uma quadrilha organizada. São Tomás lembraria que contrato sem verdade é forma de violência. Sócrates faria a pergunta que todos evitam: quem aqui sabe o que está comprando?
Quase ninguém.
Esta crise será pedagógica, mas o aluno rico costuma colar na prova. Talvez os governos salvem bancos. Talvez bancos sobrevivam. Talvez executivos preservem fortuna. Talvez reguladores publiquem novas regras. Mas algo mais profundo terá sido revelado: o homem moderno construiu máquinas financeiras maiores que sua própria prudência.
O mercado não será destruído por falta de inteligência. Será ferido por excesso de esperteza.
Minha previsão é simples: agosto de 2007 será lembrado como um mês em que as placas tectônicas se moveram antes do terremoto principal. Alguns verão apenas fundos fechados. Eu vejo o congelamento inicial da confiança. Os próximos meses talvez tragam intervenções, cortes de juros, discursos tranquilizadores, fusões forçadas e novos nomes no cemitério. O evento decisivo pode ainda estar adiante. Mas a tese já está visível.
A alavancagem construiu uma catedral sobre areia molhada.
A história financeira é sempre a mesma peça com figurino diferente. O primeiro ato é inovação. O segundo é democratização. O terceiro é excesso. O quarto é fraude aceitável. O quinto é resgate. No intervalo, os culpados explicam que ninguém poderia prever.
Mentira.
Não era necessário prever o dia. Bastava entender o pecado.
O subprime não é a crise. É a confissão involuntária de uma época que vendeu imprudência como ciência.
Leo Bentier