A empresa que depende de crédito barato não tem estratégia, tem anestesia
Uma leitura fria sobre o excesso de crédito antes da crise financeira: Dinheiro barato estava mascarando fragilidade operacional.
1 de janeiro de 2008
A empresa que depende de crédito barato não tem estratégia, tem anestesia
Uma leitura fria sobre o excesso de crédito antes da crise financeira: Dinheiro barato estava mascarando fragilidade operacional.
A maioria dos executivos lê esse sinal como notícia. É o primeiro erro. Notícia é o que chega quando o mercado já encontrou uma palavra confortável para a mudança; sinal é o que aparece antes, torto, incompleto, mal precificado. Em 2008-01, o excesso de crédito antes da crise financeira já mostrava uma mudança de estrutura, não um episódio isolado. O ponto não era adivinhar a manchete seguinte, era perceber que o sistema começava a punir empresas sem caixa, sem memória operacional, sem disciplina de decisão e sem relação honesta com o custo do próprio crescimento.
A leitura correta era menos teatral e mais dura: dinheiro barato estava mascarando fragilidade operacional Quem entendesse isso não precisava posar de profeta. Precisava apenas recusar a superstição gerencial de que bons resultados validam bons processos. Muitas empresas crescem porque o vento ajuda, não porque sabem navegar. Quando o vento muda, descobre-se quem tinha sistema e quem tinha apenas gente ocupada, planilhas bonitas, reuniões longas e uma coleção de opiniões vendidas internamente como estratégia.
O que vale para a empresa vale, com juros, para o país. Um Estado que só cresce quando o crédito é subsidiado não tem estratégia, tem anestesia fiscal — e anestesia não cura; apenas adia a dor para quando ela custa mais caro. O Brasil conhece o ciclo: a abundância absolve a indisciplina, a escassez pune primeiro quem não escolheu o vício. Disciplina de capital não é austeridade de ocasião, é projeto de nação — a diferença entre um governo que administra o próprio apetite e um que terceiriza a ressaca para a geração seguinte. A empresa sem sistema para decidir acaba decidida pelo ambiente. O país também; a diferença é que, no país, quem paga a conta da anestesia raramente é quem dormiu com ela.
Leo Bentier