O grau de investimento é uma medalha; o ciclo ainda é o juiz
Quando um país recebe aplauso estrangeiro, deve contar os talheres depois do jantar.
30 de abril de 2008
O grau de investimento é uma medalha; o ciclo ainda é o juiz
Quando um país recebe aplauso estrangeiro, deve contar os talheres depois do jantar.
O Brasil recebeu hoje o que Brasília tratará como diploma de maturidade: a Standard & Poor's elevou a nota soberana brasileira a grau de investimento. O mercado comemorará. O governo sorrirá. Os jornais usarão palavras como "histórico", "confiança", "novo patamar", "reconhecimento" e "Brasil sério". A Bovespa talvez responda como adolescente aceito em clube de gente rica. Muitos dirão que finalmente entramos na sala dos adultos.
Talvez. Mas convém lembrar: adulto não é quem recebe convite para jantar. Adulto é quem sabe se comportar quando acaba o vinho.
O grau de investimento é importante. Não é uma invenção irrelevante. Ele reduz barreiras para certos investidores, melhora percepção de risco, barateia capital em algumas circunstâncias e sinaliza que o país percorreu distância desde o desespero cambial, fiscal e inflacionário de décadas anteriores. Negar isso seria mesquinhez. O Brasil de 2008 não é o Brasil de 1989, nem o de 1999, nem o de 2002. Há reservas internacionais. Há sistema bancário mais bem regulado. Há inflação domesticada, ainda que não morta. Há demanda interna. Há formalização. Há bancos lucrativos. Há um presidente popular. Há commodities caras. Há China. Há crédito. Há autoestima.
O perigo mora exatamente aí.
Países raramente quebram quando sabem que são frágeis. Eles quebram quando passam a acreditar que sua fragilidade foi aposentada.
O Brasil está sendo parabenizado por ter atravessado uma ponte. O problema é que muitos concluirão que já chegaram ao destino. Não chegaram. Um rating é fotografia, não caráter. É termômetro, não sistema imunológico. É opinião remunerada sobre capacidade de pagamento, não ordenação moral da república. A agência olha indicadores, compara risco, mede trajetória e atribui selo. Mas não mede a vaidade que nasce do selo. Não mede a disposição de gastar mais porque alguém de fora disse que somos confiáveis. Não mede a arrogância de uma elite política que confunde chancela com absolvição.
O Brasil é especialista em transformar sinais externos em autoengano interno.
Fomos abençoados por liquidez global, apetite por emergentes e fome chinesa por matéria-prima. O mundo quer minério, soja, petróleo, carne, açúcar, etanol, celulose, energia. O Brasil descobre que nasceu sentado sobre mercadorias que os outros desejam. Isso é bom. Mas recurso natural tem uma qualidade moral ruim: ele permite que sociedades adiem conversas difíceis.
Uma nação produtiva precisa melhorar porque sua riqueza depende de disciplina. Uma nação que exporta abundância pode enriquecer o bastante para continuar incompetente por mais tempo.
A política brasileira fará desta notícia uma narrativa. Dirá que o mundo reconheceu o acerto do projeto nacional. O lulismo dirá que o Brasil ficou grande porque incluiu os pobres, fortaleceu o mercado interno, preservou responsabilidade macroeconômica e distribuiu renda. A oposição dirá que o grau de investimento é herança da estabilização anterior, do Plano Real, da responsabilidade fiscal e de reformas que o próprio PT combateu. Ambos terão parte da verdade. E, como sempre, usarão a parte da verdade que serve ao próprio altar.
O país real, fora da missa partidária, deveria fazer outra pergunta: que tipo de crescimento estamos construindo?
A demanda doméstica cresce. O crédito cresce. O consumo das famílias cresce. O investimento cresce. O governo cresce. A arrecadação cresce. A confiança cresce. O problema é que quase tudo cresce ao mesmo tempo que a prudência encolhe. O brasileiro acredita que entrou em uma era sem retorno. O empresário acredita que a demanda continuará. O banco acredita que o consumidor continuará pagando. O político acredita que a receita continuará subindo. O investidor estrangeiro acredita que o emergente é uma categoria e não uma sucessão de acidentes nacionais. O funcionário público acredita que o Estado poderá prometer mais. A classe média acredita que financiar é possuir. A elite acredita que o país finalmente foi perdoado por sua própria história.
História não perdoa. Ela apenas dá prazos.
Há um detalhe quase religioso na política moderna: todo governo quer transformar conjuntura favorável em virtude própria. Se o vento ajuda, o governante se declara navegador genial. Se a maré sobe, ele se declara engenheiro do oceano. Se commodities sobem, ele chama de projeto nacional. Se o crédito expande, chama de inclusão. Se a bolsa dispara, chama de confiança. Se o rating melhora, chama de redenção.
O verdadeiro teste virá quando o vento mudar.
E ele mudará. Não porque eu deseje. Porque ciclos existem. O mundo financeiro lá fora já dá sinais de doença desde o ano passado. Os nomes são estrangeiros e por isso parecem distantes: subprime, Bear Stearns, CDO, funding, liquidez, crédito estruturado. Mas a doença não respeita idioma. O sistema financeiro global criou uma teia em que a inadimplência de um mutuário americano pode alterar a disposição de risco de um fundo europeu, que pode afetar fluxo para emergentes, que pode afetar câmbio brasileiro, que pode afetar inflação, juros, dívida corporativa, bolsa, investimento e emprego. Quem acha isso exagero ainda vive no século do navio a vapor.
O Brasil está melhor preparado do que antes. Isso não significa que está blindado. Blindagem é palavra que jornalista usa quando ainda não entendeu a munição.
O governo terá a tentação de usar esta nota como licença. Licença para gastar, intervir, subsidiar, escolher campeões, acelerar bancos públicos, manipular incentivos, ampliar crédito direcionado e reforçar a tese de que Brasília, quando animada, produz prosperidade. O povo terá a tentação de acreditar que renda futura já pode ser consumida no presente. O empresário terá a tentação de confundir demanda financiada com riqueza permanente. O mercado terá a tentação de confundir rating soberano com proteção contra estupidez corporativa.
A melhor resposta ao grau de investimento seria humildade institucional. Aproveitar o capital mais barato para elevar produtividade, simplificar impostos, melhorar infraestrutura, reformar educação, aumentar poupança, reduzir privilégios, profissionalizar o Estado, melhorar marcos regulatórios, diminuir o custo de empreender, abrir a economia com inteligência e transformar bonança em capacidade permanente.
A resposta provável será outra: celebração.
Cícero entenderia o risco. A república se perde quando os homens públicos convertem o bem comum em patrimônio de facção. São Tomás perguntaria se a riqueza nova está ordenada a uma finalidade justa ou apenas à multiplicação de apetites. Santo Agostinho lembraria que a cidade terrena ama a própria glória até o desprezo da verdade. Marco Aurélio aconselharia sobriedade no triunfo, porque o elogio externo não altera a natureza interna do homem.
O Brasil precisa de Marco Aurélio; terá carnaval de rating.
A previsão desta carta é simples. Este 30 de abril de 2008 será lembrado como auge simbólico de uma autoconfiança. Talvez ainda venham mais boas notícias. Talvez outras agências sigam a mesma direção. Talvez o capital estrangeiro continue entrando. Talvez a bolsa suba. Talvez o Brasil pareça, por alguns anos, país finalmente destinado à grandeza. Mas o selo recebido hoje também criará uma intoxicação. O país passará a se tratar como caso resolvido. E países que se tratam como casos resolvidos param de resolver seus casos.
Quando a crise global se aprofundar, e ela ainda pode se aprofundar, o Brasil descobrirá que não está fora do mundo. Pode sofrer menos que outros. Pode atravessar melhor que no passado. Pode até sair politicamente fortalecido no curto prazo. Mas a ideia de blindagem será desmentida. Câmbio mexerá. Crédito apertará. Exportações sentirão. Empresas que se alavancaram em dólar lembrarão que moeda estrangeira não é brinquedo. Bancos públicos serão convocados como bombeiros. O Estado sairá da crise maior do que entrou. E toda intervenção emergencial, quando funciona um pouco, vira vício permanente.
Esta é a parte que me preocupa: o Brasil talvez atravesse a crise com dano administrável e conclua a lição errada. A lição correta seria: tínhamos reservas, regulação e sorte; precisamos reduzir fragilidades. A lição política será: o Estado salvou, logo o Estado deve comandar mais. A diferença entre essas duas leituras pode definir a próxima década.
O Brasil não precisa escolher entre mercado ingênuo e Estado messiânico. Precisa escolher entre prudência e vaidade. O mercado sem moral vira cassino. O Estado sem limite vira proprietário da sociedade. A boa política existe para impedir que ambos mintam demais.
Hoje nos entregaram uma medalha. Que ela não vire armadura imaginária.
Porque o ciclo, ao contrário das agências, não publica relatório antes de rebaixar uma nação. Ele apenas cobra.
O grau de investimento é o retrato de um momento. A insolvência moral de uma república começa quando ela confunde retrato com alma.
Leo Bentier