Lehman foi o cadáver; o funeral será global
Quando o dinheiro público enterra o risco privado, a crise muda de nome: deixa de ser mercado e vira regime.
15 de setembro de 2008
Lehman foi o cadáver; o funeral será global
Quando o dinheiro público enterra o risco privado, a crise muda de nome: deixa de ser mercado e vira regime.
Lehman Brothers pediu falência hoje. A frase parece técnica, quase administrativa. Não é. Um banco fundado em 1850, sobrevivente de guerras, pânicos, depressões, bolhas e ciclos, caiu como casa velha que todos diziam estar reformada. A cena tem algo de sacrificial: um nome antigo entregue ao fogo para convencer o mundo de que ainda existe disciplina. Não funcionará por muito tempo.
O mercado queria saber quem seria salvo e quem seria deixado à própria sorte. Bear Stearns teve socorro. Fannie Mae e Freddie Mac foram tomadas pelo governo. AIG já está cercada por fantasmas que talvez exijam intervenção. Lehman foi abandonado. O Estado americano tenta desenhar uma linha moral no meio de uma enchente. Linhas desenhadas em enchente não duram.
A falência do Lehman não é apenas a quebra de uma instituição. É a revelação de que ninguém sabe exatamente quem deve a quem, quanto vale o quê, quem está líquido, quem está insolvente, quem está apenas fingindo, quem tem colateral bom, quem tem colateral podre, quem entende o próprio balanço e quem depende de confiança que acabou de morrer.
O dinheiro moderno é, em larga medida, confiança com interface bancária. Quando a confiança morre, os prédios continuam em pé, os executivos continuam de terno, as telas continuam piscando, os contratos continuam assinados, mas a civilização financeira começa a se perguntar se a outra parte existe.
E quando a outra parte vira dúvida, o mercado vira multidão.
A queda de Lehman será tratada como evento. Deveria ser tratada como exame de autópsia. O corpo já estava doente. O subprime foi apenas a ferida visível. A doença verdadeira era alavancagem moral. Bancos operavam com capital fino demais, produtos opacos demais, incentivos tortos demais, bônus imediatos demais e responsabilidade distante demais. O sistema aprendeu a monetizar expansão e terceirizar consequência. Esse arranjo não é capitalismo. É um parasitismo elegante sobre a garantia implícita do Estado.
O livre mercado não morreu hoje. Morreu algo mais específico e mais feio: a fantasia de que homens altamente alavancados, protegidos por complexidade, guiados por bônus e monitorados por reguladores atrasados produzirão disciplina espontânea.
Disciplina espontânea existe quando o tomador de risco pode morrer do próprio erro. Quando ele sabe que será salvo por ser grande, conectado ou perigoso demais, a disciplina vira teatro. O banqueiro diz "mercado" na subida e "sistema" na descida. Na subida, ele é empreendedor. Na descida, é infraestrutura crítica. Na subida, pede liberdade. Na descida, pede liquidez. Na subida, chama o Estado de ineficiente. Na descida, chama o Estado de inevitável.
É uma liturgia antiga. O nome moderno é "too big to fail". O nome verdadeiro é privilégio.
Lehman, ao cair, cria um problema ainda maior: se alguns são salvos e outros não, o mercado tentará descobrir quem pertence à aristocracia do resgate. Essa dúvida é veneno. Um sistema financeiro não aguenta ambiguidade moral durante pânico. Todos correm para longe do que não entendem. O crédito interbancário congela. Fundos vendem o que podem, não o que querem. Empresas sólidas perdem financiamento porque empresas podres queimaram a ponte. O prudente paga spread criado pelo imprudente. O inocente descobre que mora na mesma rua do incêndio.
E o contribuinte, que não assinou os contratos, será convocado como bombeiro, fiador e coveiro.
Preparem a linguagem. Ela virá em ondas. Primeiro: estabilidade. Depois: liquidez. Depois: medidas extraordinárias. Depois: proteção aos depositantes. Depois: programa temporário. Depois: pacote. Depois: reconstrução da confiança. Em nenhum momento usarão a palavra central: socialização. Estão prestes a socializar perdas produzidas por uma elite que passou anos privatizando a falsa genialidade.
Os defensores do mercado deveriam ser os primeiros a odiar isso. Mas muitos ficarão calados porque conhecem os beneficiários. A direita financeira gosta de risco desde que o risco pare no andar de baixo. A esquerda estatista ficará feliz em dizer que o mercado falhou, mas usará a falha para expandir o poder de burocratas que também não entendem o que supervisionam. Cada tribo encontrará confirmação de sua fé. Poucos encontrarão a verdade.
A verdade é mais desagradável: mercado sem falência vira oligarquia; Estado sem limite vira captura; democracia sem responsabilidade fiscal vira chantagem; crédito sem prudência vira política pública informal; e cidadão sem poupança vira refém de todas as mentiras.
O que acontece nos Estados Unidos não ficará nos Estados Unidos. A América exportou seus produtos financeiros como Roma exportava estradas. Agora exportará desconfiança. A Europa descobrirá que comprou mais lixo americano do que deseja admitir. Bancos centrais cortarão juros, abrirão linhas, aceitarão colateral, improvisarão siglas. Governos descobrirão que seus orçamentos são menores que seus medos. A China será chamada, silenciosamente, a continuar financiando a ordem que finge não depender dela. Emergentes serão lembrados de que emergente é sobrenome, não escudo.
O Brasil deve observar com menos soberba. Temos reservas. Temos bancos menos expostos ao veneno específico. Temos commodities. Temos mercado interno. Temos presidente popular. Temos crédito crescendo. Temos o grau de investimento recém-recebido como medalha no peito. Mas medalhas afundam junto com o soldado se ele pula no rio sem saber nadar.
O Brasil sofrerá pelo canal da confiança, do crédito, do comércio, do câmbio e da expectativa. Talvez menos que em crises anteriores. Talvez o sistema bancário local resista. Talvez a demanda interna absorva parte do choque. Mas o discurso de blindagem será ridículo. Nenhum país conectado ao preço de commodities, ao fluxo de capitais, à rolagem corporativa, à exportação e ao humor global pode se declarar ilha. Ilha é uma palavra geográfica, não financeira.
O risco brasileiro está em tirar a conclusão errada se sobreviver relativamente bem. Se o dano for menor que nos países centrais, Brasília dirá: "nosso modelo venceu". Essa frase é perigosa. Sobreviver a uma doença não transforma todos os seus hábitos em medicina.
O governo poderá usar bancos públicos para sustentar crédito. Poderá estimular consumo. Poderá expandir presença estatal. Poderá tratar intervenção emergencial como prova de superioridade estrutural. O povo talvez agradeça. Empresários talvez peçam mais. Políticos talvez descubram um novo prazer: comandar alavancas sob a desculpa de proteger empregos. O Estado brasileiro, que já era grande, pode sair desta crise mais convencido de sua própria necessidade.
E aí a semente estará plantada.
A crise financeira de 2008 talvez não destrua o Brasil em 2009. Mas pode fortalecer uma crença que destruirá disciplina adiante: a crença de que o Estado sempre pode resolver demanda com crédito, setor com subsídio, empresa com proteção, consumo com estímulo, crescimento com vontade e contabilidade com narrativa. A tragédia brasileira raramente vem em forma de queda imediata. Vem em forma de lição mal aprendida.
No plano global, esta data também marcará uma mudança de regime. A crise forçará bancos centrais a entrar em território que antes parecia heresia. Juros muito baixos, expansão de balanços, resgates, garantias, novas regulações, compressão de retornos, busca desesperada por rendimento. O dinheiro barato que salvará o sistema também deformará comportamento futuro. Ao impedir a morte de muitos excessos, pode preservar a cultura que os produziu.
Toda intervenção tem sombra. Às vezes é necessária. Mas o necessário não deixa de ser perigoso só porque foi inevitável.
Churchill entenderia este dia como momento de sangue frio, não de slogan. Marco Aurélio lembraria que pânico é mau conselheiro, mas negação é pior. Cícero perguntaria que república permite que seus homens ricos ameacem a cidade com a própria imprudência. São Tomás perguntaria se contratos construídos sobre opacidade podem ser moralmente defendidos apenas porque são legalmente válidos. Santo Agostinho veria, no coração de Wall Street, a velha cidade dos homens: amor de si até o desprezo da verdade.
Não se enganem. Haverá culpados individuais, mas a culpa é sistêmica porque foi cultural. A civilização financeira decidiu que complexidade era substituto da virtude. Decidiu que rating era substituto de julgamento. Decidiu que liquidez era substituto de solvência. Decidiu que diversificação era substituto de entendimento. Decidiu que incentivo de curto prazo era compatível com estabilidade de longo prazo. Decidiu que risco podia ser vendido até desaparecer.
Risco não desaparece. Apenas muda de endereço.
Hoje ele mudou para o endereço do contribuinte.
A falência do Lehman será lembrada como começo do pânico final. Eu a leio como fim de uma inocência falsa. A partir de agora, cada cidadão atento deve entender que a fronteira entre mercado e Estado é mais porosa do que a propaganda admite. Em tempos calmos, os poderosos defendem fronteiras. Em tempos de crise, atravessam de madrugada.
O funeral será global. O cadáver é americano. O cheiro é de uma época inteira.
Lehman caiu porque era frágil. O sistema treme porque fingiu que fragilidade, quando bem embalada, virava segurança.
Leo Bentier