O crédito é uma pergunta só — e o mundo passou dez anos sem respondê-la
O que acontece se você não pagar? Tudo no crédito existe para responder essa pergunta antes que ela seja feita; 2008 é o que acontece quando a resposta é uma sigla.
27 de outubro de 2008
O crédito é uma pergunta só — e o mundo passou dez anos sem respondê-la
O que acontece se você não pagar? Tudo no crédito existe para responder essa pergunta antes que ela seja feita; 2008 é o que acontece quando a resposta é uma sigla.
O interbancário mundial congelou. Banco não empresta para banco, nem por uma noite, nem com prêmio. Os tesouros nacionais despejam trilhões e o dinheiro não circula. O leitor apressado conclui que o dinheiro acabou.
O dinheiro não acabou. O que sobrou foi medo.
Todos procuram culpados: o subprime, as agências, a ganância, as siglas. Culpados são um consolo; mecanismos são uma educação. Eu prefiro o mecanismo, porque ele é simples o bastante para caber numa frase e antigo o bastante para não ter dono.
Crédito, reduzido à essência, é uma pergunta só: o que acontece se você não pagar?
Tudo o que a humanidade inventou em matéria de dívida é forma de responder essa pergunta antes que ela seja feita. A garantia responde. O covenant responde. O prazo casado com o fluxo responde. O penhor, a hipoteca, a caução, o fiador — cada instituto é um pedaço de resposta, escrito e registrado enquanto as partes ainda se cumprimentam.
O mundo passou dez anos respondendo com uma sigla.
O empréstimo imobiliário americano foi empacotado, fatiado, reempacotado e carimbado por uma agência paga pelo próprio emissor. No fim da esteira, ninguém sabia mais o que havia dentro do pacote — sabia-se apenas o carimbo. Quando alguém finalmente fez a pergunta original, o que acontece se o mutuário de Cleveland não pagar?, descobriu-se que a resposta havia sido terceirizada, e que o terceirizado não tinha resposta. Tinha opinião.
Rating é opinião alugada. Garantia é fato registrado.
O pânico atual é a diferença entre as duas coisas sendo precificada de uma vez só, depois de uma década de carência. Confiança morreu no mundo inteiro em seis semanas. Repare, porém, no que não morreu: o colateral. O imóvel de Cleveland vale menos, mas vale algo, e quem tem o registro executa. Quem tem a sigla espera na fila, atrás dos advogados, para descobrir o que exatamente possui.
Em toda crise de crédito da história, a mesma seleção: promessa vira pó, fato vira preço. Quem emprestou contra opinião perdeu o sono. Quem emprestou contra ativo real, com folga, perdeu apenas a vaidade de ter ganhado menos na euforia.
O Brasil, que assistia de camarote, acaba de descobrir que também estava na plateia.
Sadia e Aracruz — empresas operacionais admiráveis, exportadoras, com décadas de competência fabril — anunciaram perdas bilionárias com derivativos cambiais. Vendiam uma estrutura que rendia um prêmio pequeno enquanto o dólar caísse e cobrava uma conta ilimitada se o dólar subisse. O dólar subiu. A tesouraria virou cassino e o conselho descobriu o jogo pelo fato relevante.
É o mesmo erro americano, no espelho. Ninguém na mesa sabia responder a pergunta o que acontece se o dólar subir? — e assinou mesmo assim. Estrutura que a diretoria não consegue explicar em uma frase não é hedge. É passivo com fantasia de receita.
Enquanto isso, o crédito comercial seca. As linhas externas de exportação sumiram, o Banco Central libera compulsórios às dezenas de bilhões, e o pequeno empresário — que nunca viu um CDO na vida — paga o pânico dos grandes no preço do giro. O crédito brasileiro, que já era caro por hábito, ficou caro por terror.
O que eu faria neste outubro?
Guardaria liquidez como quem guarda munição, não como quem guarda medo. Em pânico, liquidez é a única ideologia. Crises desta escala transferem patrimônio de quem precisa vender para quem pode esperar, e a fila dos que precisam vender está apenas começando a se formar.
E emprestaria — sim, emprestaria. Este é o momento em que quem tem capital e sabe fazer a pergunta certa faz o negócio da década. Emprestar contra ativo real, com desconto de pânico na avaliação e resposta registrada em cartório, nunca foi tão bem pago quanto nas semanas em que ninguém empresta nada. O prêmio do medo alheio é a mais honesta das receitas: cobra-se caro por ter feito o dever de casa que o mundo inteiro adiou.
Não compraria a promessa de que isso nunca mais acontecerá. Vão regular sigla por sigla, comitê por comitê, e o próximo excesso trocará de nome, porque o excesso sempre troca de nome. A pergunta, não. A pergunta é a mesma desde a Mesopotâmia.
O crédito vai voltar. Crédito sempre volta; a civilização não funciona sem ele.
Mas repare em como ele voltará: pedindo garantia, lendo o fluxo, casando o prazo, registrando a resposta. O crédito que renasce de uma crise renasce sempre mais estruturado do que o que morreu nela.
Quem aprender isso agora, com o dinheiro dos outros, não precisará aprender depois, com o próprio.
Leo Bentier