O resgate dos bancos é uma aula sobre incentivos
Uma leitura fria sobre os programas de resgate do sistema financeiro: Sem responsabilidade proporcional ao poder, o sistema repete o erro.
1 de março de 2009
O resgate dos bancos é uma aula sobre incentivos
Uma leitura fria sobre os programas de resgate do sistema financeiro: Sem responsabilidade proporcional ao poder, o sistema repete o erro.
2009-03 teria merecido um texto frio porque os programas de resgate do sistema financeiro não era um detalhe de calendário. Era um teste de sanidade empresarial. Sempre que um choque parece externo demais para ser incorporado à gestão, ele revela uma fraqueza interna que estava sendo ignorada. O executivo comum transforma surpresa em desculpa; o executivo raro transforma surpresa em arquitetura. A diferença entre os dois não é inteligência bruta, é a disposição de colocar a empresa contra a realidade antes que a realidade coloque a empresa contra a parede.
Sem responsabilidade proporcional ao poder, o sistema repete o erro Essa frase deveria estar no centro do artigo, porque ela obriga o leitor a abandonar o conforto da causalidade simples. Empresas não são derrotadas apenas por concorrentes, tecnologias, crises ou governos. Elas são derrotadas por decisões lentas, memória dispersa, métricas mal conectadas, incentivos tortos e incapacidade de converter sinais pequenos em ação coordenada. O mundo muda primeiro em margens estreitas; depois aparece nos relatórios trimestrais, quando já ficou caro reagir.
O ponto cego do resgate não era contábil, era pedagógico: toda instituição aprende com aquilo que a deixa impune. Sem responsabilidade proporcional ao poder, o sistema repete o erro — e repete melhor, porque agora conhece o preço do socorro: zero. É por isso que desenho de incentivos é o verdadeiro ofício do legislador, muito antes de ser tema de banco central. Lei que pune o pequeno e negocia com o grande, programa que premia quem falha, garantia que protege quem apostou errado: cada um desses desenhos é uma aula ministrada em escala nacional, com o contribuinte pagando a matrícula. Menos opinião, mais sistema; menos narrativa, mais consequência. Um país não é reformado por indignação — é reformado por incentivo.
Leo Bentier