Spread não cai por discurso; cai por estrutura. Atacaram o preço e esqueceram o desenho.
O spread brasileiro contém lucro excessivo, mas também contém o custo das nossas instituições ruins — e misturar ambos protege os dois: o banco usa a complexidade para justificar margem, o político usa a margem para evitar reformas complexas.
16 de abril de 2012
Spread não cai por discurso; cai por estrutura. Atacaram o preço e esqueceram o desenho.
O spread brasileiro contém lucro excessivo, mas também contém o custo das nossas instituições ruins — e misturar ambos protege os dois: o banco usa a complexidade para justificar margem, o político usa a margem para evitar reformas complexas.
A presidente decidiu atacar o spread bancário. Bancos públicos foram convocados a reduzir juros, bancos privados foram pressionados a acompanhar e o país recebeu a mensagem de que taxas elevadas são uma escolha que pode ser corrigida por vontade política. Há alguma verdade nisso. Há também a confusão habitual entre preço e estrutura. Spread não cai de forma sustentável por discurso; cai quando o credor precisa de menos remuneração para capital, custo, perda, iliquidez e incerteza. Atacaram o preço e esqueceram o desenho.
O spread é uma palavra útil porque mistura tudo. Dentro dela cabem impostos, compulsórios, despesas administrativas, inadimplência, recuperação judicial lenta, custo de capital, concentração bancária, margem e simples poder de mercado. Ao tratar o conjunto como abuso, o governo obtém um inimigo visível. Ao decompor o conjunto, encontraria problemas difíceis que não cabem em palanque: registros fragmentados, garantias de execução incerta, informações financeiras ruins, competição limitada e empresas que misturam o caixa do negócio com o patrimônio do controlador.
Bancos públicos podem reduzir taxas imediatamente porque não respondem aos mesmos incentivos de um banco privado. Podem aceitar margem menor, usar funding favorecido, receber orientação do controlador estatal e tratar expansão de carteira como instrumento de política econômica. Isso força concorrência e pode retirar gordura. Mas também pode substituir preço por risco fiscal. Quando a taxa cai sem que a perda esperada ou o custo de recuperação caiam, alguém continua pagando a diferença. Apenas não aparece no contrato do devedor.
O governo observará uma redução e declarará vitória. O banco privado responderá em produtos selecionados, para clientes selecionados, protegendo margem em tarifas, seguros, reciprocidades e exigências de relacionamento. O empresário verá uma taxa menor na publicidade e descobrirá que não se aplica à sua empresa. O sistema ficará mais barato na média e continuará arbitrário no caso concreto. Médias são excelentes instrumentos de comunicação porque nenhum tomador vive dentro delas.
A taxa de um empréstimo empresarial é o fim de uma cadeia. Antes dela existe a pergunta sobre a fonte de pagamento. O banco financia o caixa geral da empresa ou um recebível específico? Existe garantia vinculada? A obrigação vence quando o ativo gera caixa? Há informação mensal? O credor possui controle sobre a conta? O devedor oferece subordinação econômica por meio de capital próprio? Sem respostas, o banco cobra pelo desconhecido. Com poder de mercado, cobra ainda mais. Reduzir apenas a parcela abusiva exige conhecer a parcela necessária.
O crédito brasileiro de prateleira funciona porque é barato para o banco produzir. Um contrato padrão, um score, aval dos sócios e garantias amplas permitem decidir rapidamente. A taxa é alta, mas o custo de análise individual é baixo. Uma operação desenhada poderia custar menos ao devedor e oferecer risco melhor ao credor, porém exige trabalho inicial. Enquanto esse trabalho custar mais do que a margem economizada, o pequeno continuará comprando o produto ruim. O problema é industrial, não apenas moral.
Há quatro maneiras duráveis de reduzir spread. A primeira é melhorar informação, distinguindo bons e maus riscos antes que todos paguem pela média. A segunda é melhorar garantias, reduzindo perda quando a previsão falha. A terceira é ampliar competição, permitindo que diferentes fontes de capital disputem o ativo. A quarta é adequar estrutura ao fluxo, reduzindo a chance de um bom negócio quebrar por um passivo mal casado. Um pronunciamento presidencial pode acelerar a terceira por meio dos bancos públicos. Não substitui as outras.
O governo poderia usar sua influência para padronizar registros, integrar dados, acelerar execução e apoiar mercados de recebíveis. Poderia exigir transparência do custo efetivo, reduzir barreiras à entrada e estimular portabilidade empresarial. Poderia fazer com que uma garantia oferecida a um credor fosse visível e comparável para outro. Isso reduziria a renda da opacidade. É mais lento do que anunciar uma nova taxa, portanto menos atraente politicamente.
A obsessão pelo preço produz um efeito perverso: empresas passam a buscar a linha mais barata sem perguntar se ela é adequada. Crédito subsidiado para capital de giro pode ser usado em expansão de longo prazo. Uma taxa menor justifica alavancagem maior. O tomador interpreta a oferta como certificação de solvência. Quando a política muda, o passivo permanece. O produto barato pode ser a dívida mais cara se cria dependência de renovação.
Eu não recusaria uma linha pública barata por princípio. Moralismo é uma estratégia de investimento ruim. Se o capital está disponível e o risco de mudança é administrável, o acionista deve considerá-lo. Mas eu trataria o benefício como temporário e avaliaria a empresa sem ele. Se o retorno sobre o capital desaparece quando a taxa volta ao mercado, o negócio não é produtivo; é subsidiado. Valuation baseado em favor político deveria usar duração política, não perpetuidade.
Como credor, desconfiaria de crescimento acelerado das carteiras pressionadas a cobrar menos. Redução de margem costuma estimular volume, e volume pode esconder deterioração por algum tempo. Bancos públicos não estão isentos de seleção adversa. Quando oferecem o melhor preço, atraem também os tomadores que os bancos privados recusaram por razões corretas. A missão pública pode justificar aceitar risco maior, mas o risco não deixa de existir porque recebeu um nome social.
A disputa pública versus privada também obscurece a ausência de uma terceira via: mercado de capitais acessível à empresa média. O empresário alterna entre bancos que parecem iguais e conclui que não existe concorrência. Existe pouca concorrência porque todos financiam o mesmo objeto genérico, o balanço da empresa, com contratos semelhantes e garantias cumulativas. Se recebíveis, estoque, equipamentos e contratos fossem financiados separadamente, credores diferentes poderiam disputar partes diferentes do risco.
Isso exige que o devedor revele mais e aceite disciplina. O balcão cobra caro, mas permite uma forma de privacidade operacional: o banco olha o suficiente para se proteger e exige aval para o resto. Uma estrutura mais barata pode exigir conta vinculada, auditoria de carteira, limites de concentração e gatilhos de amortização. Alguns empresários rejeitarão essas condições e culparão o mercado pelo spread. Na verdade, preferem pagar pela liberdade de continuar desorganizados.
A tecnologia reduzirá esse custo. Dados bancários, fiscais e comerciais poderão ser processados continuamente. Recebíveis poderão ser verificados em vez de declarados. Garantias poderão ser registradas com menos fricção. O credor poderá precificar comportamento atual, não apenas balanço antigo. Quando isso acontecer, o bom devedor deixará de subsidiar parte do mau. A redução virá de distinção, não de solidariedade forçada.
A política de 2012 talvez consiga demonstrar que margens bancárias não são imutáveis. Isso é útil. O erro seria concluir que a pressão resolveu o problema. Bancos respondem a incentivos; se um produto deixa de remunerar, reduzem oferta, mudam composição ou cobram em outro lugar. O Estado pode sustentar preço artificial por algum tempo, mas não obrigar capital privado a ignorar retorno para sempre. O crédito migra como água: contorna a barragem.
Uma agenda séria deveria medir o custo total e a disponibilidade por perfil, prazo e garantia, não apenas uma taxa média. Deveria perguntar quantas empresas continuam excluídas, quanto tempo leva a recuperação, qual parcela do spread decorre de concentração e quanto poderia ser reduzido por documentação melhor. Sem isso, cada lado escolhe um número: o governo mostra queda, os bancos mostram inadimplência e o empresário mostra o contrato que continua caro. Todos têm razão dentro do recorte e ninguém muda a máquina.
Minha posição em ações bancárias seria cautelosa, não apocalíptica. Pressão política pode comprimir margens e redistribuir participação para bancos públicos, mas instituições privadas conservam vantagens em seleção, serviços, depósitos e capacidade de reprecificar. O risco maior está em bancos ou financeiras que cresçam para defender participação enquanto relaxam crédito. Margem menor com perda estável é competição. Margem menor com perda futura é adiamento contábil.
No lado empresarial, favoreceria companhias capazes de financiar ativos específicos e reduzir dependência do balcão. Empresas com recebíveis de boa qualidade, contratos longos, imóveis livres e governança financeira podem criar alternativas. As demais continuarão negociando alguns pontos enquanto entregam aval, patrimônio e futuro ao mesmo credor. A vantagem não será encontrar o gerente mais simpático. Será chegar à conversa com risco organizado.
O spread brasileiro contém lucro excessivo, mas também contém o custo de nossas instituições ruins. Misturar ambos protege os dois. O banco usa a complexidade para justificar margem; o político usa a margem para evitar reformas complexas. O empresário paga pela aliança involuntária. A saída exige remover as camadas uma a uma, até que o preço remanescente possa ser disputado de verdade.
Atacaram o preço porque ele é visível. Esqueceram o desenho porque ele distribui responsabilidade entre cartórios, tribunais, reguladores, bancos, empresas e investidores. Não há vilão único, portanto não há discurso simples. Mas crédito não respeita discursos. Ele respeita precedência, informação e recuperação. O juro pode cair por ordem durante uma estação. O medo só cai quando sabe exatamente o que recebe se estiver certo e o que recupera quando estiver errado.
Leo Bentier