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Comecei a vender dinheiro. Sem placa na porta.

Descobri que não preciso ser dono do capital para participar das melhores operações. Preciso entender quem precisa dele, quem pode fornecê-lo e por que os dois ainda não se encontraram.

28 de abril de 2019

Dinheiro é fungível. Quem possui o dinheiro, não.

capital
XThreadsin

Comecei a vender dinheiro. Sem placa na porta.

Descobri que não preciso ser dono do capital para participar das melhores operações. Preciso entender quem precisa dele, quem pode fornecê-lo e por que os dois ainda não se encontraram.

Há dez anos escrevi uma frase que ouvi de um empresário e que, por algum motivo, nunca consegui abandonar: nada dá mais dinheiro do que vender dinheiro. Naquela época eu não sabia exatamente o que significava vender dinheiro. A frase me atraía pela mecânica, quase pela insolência. Uma indústria vende um produto e precisa fabricá-lo novamente. Quem empresta dinheiro entrega capital esperando recebê-lo de volta acrescido de um preço. Parecia a mercadoria perfeita.

Levei algum tempo para entender que essa interpretação era incompleta.

O negócio mais interessante talvez não esteja em possuir o dinheiro.

Pode estar em saber movimentá-lo.

Comecei a fazer isso.

Ainda é cedo para transformar a atividade numa identidade e talvez eu nunca tenha interesse em fazê-lo publicamente. Não existe placa na porta dizendo que sou um grande financista, não existe necessidade de construir uma personagem em torno disso e não vejo vantagem em anunciar cada operação. Algumas profissões aumentam de valor quando todos sabem que você as exerce. Outras parecem funcionar melhor quando as pessoas certas sabem.

Tenho preferido a segunda categoria.

Empresários chegam com necessidades de capital. Algumas são bastante simples. Outras deixam de ser simples depois da terceira pergunta. Minha função começa antes de procurar uma instituição. Preciso entender quanto realmente é necessário, por que aquele dinheiro é necessário, por quanto tempo, de onde deveria sair o pagamento e que parte do patrimônio poderia alterar a maneira como o mercado enxerga o risco.

Depois vem o outro lado.

Quem poderia financiar?

Banco?

Fundo?

Alguma instituição especializada?

Capital privado?

Qual deles entende aquela empresa? Qual aceita aquele tipo de garantia? Qual possui prazo compatível? Qual não deveria sequer receber a operação porque passaria duas semanas pedindo documentos antes de recusá-la por uma regra que poderíamos ter conhecido no primeiro dia?

É assim que comecei efetivamente a trabalhar como loan broker, embora o termo em inglês talvez dê uma aparência mais elegante a uma atividade que no cotidiano contém bastante trabalho pouco elegante.

Há documentos.

Telefonemas.

E-mails.

Planilhas.

Follow-ups.

Operações que parecem boas e morrem.

Operações que inicialmente parecem impossíveis e encontram uma estrutura.

Empresários que acreditam possuir garantia extraordinária porque alguém lhes disse quanto um imóvel “vale”.

Instituições que apresentam uma taxa atraente e condições que tornam a taxa quase irrelevante.

Contadores que demoram.

Documentos em versões diferentes.

Propostas que mudam.

Gente que promete responder na sexta-feira e transforma sexta-feira num conceito filosófico.

Há muito menos champanhe do que as fotografias do mercado financeiro sugerem.

Melhor assim.

O trabalho real costuma acontecer longe da fotografia.

Talvez uma das coisas que mais tenha me surpreendido seja a quantidade de negócios financeiros que dependem de tarefas extremamente rudimentares. É possível estar discutindo uma operação de milhões e descobrir que a principal informação continua numa conversa de WhatsApp, que a última versão do balanço está perdida no e-mail de alguém ou que ninguém sabe exatamente quais instituições já receberam a demanda.

A sofisticação do capital muitas vezes termina onde começa a operação.

Por enquanto, isso ainda me diverte mais do que incomoda. Estou aprendendo.

Mas existe algo intelectualmente importante nessa experiência: o sistema financeiro não é uma grande máquina perfeitamente integrada na qual dinheiro procura automaticamente seu melhor uso. É uma coleção de instituições, pessoas, políticas, relacionamentos, incentivos e informações que não conversam tão bem quanto a teoria gostaria.

Capital pode estar disponível num lugar enquanto uma boa empresa procura capital em outro.

E os dois podem jamais se encontrar.

Não porque haja um grande mistério econômico.

Porque ninguém fez a ligação correta.

Essa é talvez a descoberta mais concreta destes primeiros meses fazendo aquilo que passei anos tentando compreender em abstrato.

O mercado não encontra.

Pessoas encontram.

A palavra mercado produz uma impressão enganosa de inteligência coletiva instantânea. “O mercado não financiou a empresa.” Talvez o mercado nem tenha visto a empresa. Talvez duas instituições tenham recusado porque o produto oferecido não cabia. Talvez o gerente que recebeu a operação não tenha entendido. Talvez a garantia tenha sido apresentada de maneira ruim. Talvez o empresário tenha pedido a coisa errada ao banco errado.

É muito fácil transformar uma experiência limitada numa conclusão universal.

“O banco não me dá crédito.”

Qual banco?

Qual linha?

Qual estrutura?

Com qual garantia?

Em que prazo?

Com quais documentos?

O empresário frequentemente chama tudo isso de crédito. Para quem trabalha no meio, são mercados diferentes escondidos sob a mesma palavra.

A mesma empresa pode ser recusada numa mesa e recebida com interesse em outra.

Isso não significa que uma das duas seja incompetente.

Podem estar olhando para o mesmo risco sob restrições diferentes.

Um banco precisa obedecer políticas que um fundo não possui. Um fundo possui obrigações que uma família privada talvez não tenha. Um credor pode gostar de recebíveis e detestar imóveis. Outro pode entender tão bem imóveis que encontra conforto justamente onde o primeiro não encontra.

Dinheiro é fungível.

Quem possui o dinheiro, não.

Talvez essa seja uma das regras mais importantes do loan broking.

Não basta encontrar dinheiro.

É preciso encontrar o dinheiro certo.

Durante anos imaginei a intermediação como uma ponte entre quem tem e quem precisa. Hoje a imagem me parece simples demais. Não é uma ponte. É mais próximo de uma rede rodoviária.

Existem muitos pontos.

Muitas restrições.

Pedágios.

Pontes que aceitam determinado peso.

Estradas que levam apenas a alguns lugares.

Quem conhece uma única rota oferece uma solução.

Quem conhece o mapa oferece opções.

Essa diferença aparece rapidamente quando o empresário depende de uma única instituição. Ele pergunta se o banco aprovará sua operação. Sua negociação começa numa posição quase binária: sim ou não.

Quando existem fontes diferentes, a pergunta pode mudar.

Qual estrutura é melhor?

O poder de negociação começa a se deslocar.

Não porque o cliente consiga obrigar alguma instituição a aceitar o que não quer. Isso seria fantasia. Mas porque uma recusa deixa de ser sentença.

A opcionalidade reduz dependência.

Talvez boa parte da riqueza seja isso: capacidade de possuir opções quando os outros possuem obrigações.

É uma ideia que aparece repetidamente quando olho para patrimônios maiores. Uma família realmente bem posicionada não é apenas a que possui muitos ativos. É aquela que consegue escolher.

Pode esperar.

Pode manter liquidez.

Pode vender.

Pode não vender.

Pode tomar crédito.

Pode amortizar.

Pode investir diretamente.

Pode deixar o dinheiro parado por algum tempo sem que sua sobrevivência dependa de produzir retorno imediatamente.

Liberdade financeira talvez seja menos sobre quantidade e mais sobre a quantidade de decisões que não somos obrigados a tomar.

Isso vale para crédito.

O empresário que precisa de dinheiro amanhã negocia mal.

O empresário que possui várias fontes possíveis e começa a organizar o funding meses antes pode recusar uma estrutura ruim.

O mesmo patrimônio.

Outra posição.

É por isso que começo a enxergar crédito como algo que deveria ser organizado antes da necessidade.

Uma relação bancária construída no dia em que a empresa precisa desesperadamente de dinheiro dificilmente será sua melhor relação.

O momento de conhecer fontes, organizar documentos, mapear garantias e entender limites talvez seja precisamente quando não há urgência.

Family offices parecem compreender isso melhor que a maioria das pessoas, ao menos quando funcionam de verdade.

Uma família com patrimônio relevante não deveria descobrir a própria liquidez potencial durante uma crise. Deveria saber antecipadamente o que possui, que ativos podem servir de garantia, onde existe concentração, quais instituições têm apetite, quanto pode ser levantado sem destruir estrutura e que alternativas privadas poderiam existir.

É gestão de opcionalidade.

Muito mais interessante do que apenas escolher fundos.

Quanto mais estudo family offices, mais reduzida me parece a descrição comum de que são escritórios de investimento de famílias ricas. Investimento é apenas uma das manifestações do patrimônio. A família também possui empresas, imóveis, passivos, necessidades de caixa, estruturas societárias, riscos jurídicos, sucessão, impostos, relações bancárias e, muitas vezes, uma quantidade considerável de ativos que não aparecem numa única demonstração consolidada.

Se ninguém vê tudo, ninguém consegue otimizar nada seriamente.

O banco vê sua parte.

A corretora vê outra.

O advogado vê estruturas.

O contador vê declarações.

Um gestor vê a carteira que administra.

Cada especialista pode ser excelente e ainda assim ninguém estar sentado exatamente do lado da família.

Talvez o family office exista para ocupar essa cadeira.

Isso tem uma implicação enorme.

Quem ocupa a cadeira da família não precisa possuir todos os produtos.

Precisa conhecer os fornecedores.

É uma forma de intermediação muito mais sofisticada do que vender uma prateleira própria.

O banco pode ser fornecedor.

O gestor, fornecedor.

O advogado.

O lender.

O broker.

A seguradora.

O próprio mercado de capitais.

O family office coordena.

Talvez essa seja também a diferença entre vender dinheiro e ser financista.

O vendedor possui uma solução e procura para quem ela serve.

O financista deveria começar pelo problema e depois descobrir qual solução serve.

Há uma assimetria de incentivos entre as duas posições que não deve ser ignorada.

Se trabalho para uma instituição que precisa distribuir determinado produto, naturalmente passarei a enxergar muitos clientes adequados àquele produto. Não é necessário ser desonesto. O cérebro humano possui capacidade extraordinária de produzir argumentos compatíveis com a remuneração de quem o alimenta.

Por isso independência econômica é tão difícil.

A pessoa que afirma não possuir conflitos talvez seja apenas a pessoa menos consciente deles.

Todo mundo possui incentivos.

O importante é conhecer a direção para a qual eles empurram.

Como loan broker, também tenho os meus.

Se sou remunerado quando a operação fecha, existe incentivo óbvio para querer que feche.

Isso me obriga a criar uma segunda disciplina: não permitir que o desejo de realizar a operação me faça confundir financiável com bom.

É possível conseguir dinheiro para uma estrutura que o cliente não deveria aceitar.

Esse é um problema moral e econômico.

Moral porque você sabe mais sobre o processo e possui responsabilidade.

Econômico porque a comissão acontece uma vez, mas o cliente continuará vivendo com a decisão depois.

Se quero trabalhar com o mesmo empresário durante vinte anos, talvez a operação que recuso hoje valha mais do que a comissão que receberia fechando-a.

Esse é o tipo de cálculo que uma visão transacional não faz.

Relação faz.

Talvez por isso meu interesse pelo modelo de multi family office esteja aumentando.

Um MFO, ao menos idealmente, pode construir uma relação duradoura com famílias sem que cada família precise manter uma estrutura própria gigantesca. Compartilha especialistas, processos, tecnologia, acesso e inteligência entre diferentes patrimônios, preservando as decisões específicas de cada um.

A economia faz sentido.

Uma família com R$ 100 milhões talvez não queira manter internamente equipes de investimentos, crédito, tributário, sucessão, consolidação, risco e operações privadas. Um bom multi family office pode distribuir parte desse custo entre várias famílias.

O risco é bastante claro.

Escala demais e o multi family office pode deixar de ser family office.

Vira banco privado sem balanço.

Segmenta clientes.

Padroniza soluções.

Cria produtos próprios.

Começa a pensar em distribuição.

O cliente que deveria ser o centro volta a ser canal.

Talvez seja inevitável em algum grau. Toda empresa que cresce enfrenta a tensão entre personalização e eficiência.

O problema é saber em qual ponto a eficiência destrói precisamente aquilo que justificava a existência da empresa.

Um family office que não conhece a família possui apenas a palavra family no nome.

Essa ideia me acompanha também como loan broker.

Há uma diferença entre possuir cinquenta demandas e conhecer cinquenta tomadores.

A primeira é CRM.

A segunda é relacionamento.

Conhecer significa entender o negócio antes da apresentação formal. Saber como ganha dinheiro, onde aperta o caixa, que ativos existem, qual histórico possui, que tipo de dívida já tomou e como se comportou quando algo saiu diferente do esperado.

Esse conhecimento torna a originação melhor.

Também cria uma espécie de continuidade.

A primeira operação custa mais para compreender.

Na segunda, parte do contexto já existe.

Depois de alguns anos, a função deixa de ser simplesmente conseguir empréstimos. Você começa a enxergar o capital dentro da história financeira daquela empresa.

Talvez seja isso que eu queira construir profissionalmente.

Não ser chamado apenas quando alguém precisa de crédito.

Ser chamado quando alguém precisa pensar capital.

A diferença parece pequena.

É enorme.

Crédito é um produto possível.

Capital é o problema inteiro.

Às vezes o empresário não precisa de dívida.

Precisa vender um ativo.

Trazer sócio.

Renegociar fornecedor.

Antecipar recebíveis.

Reduzir estoque.

Usar uma garantia melhor.

Alongar prazo.

Talvez precise simplesmente parar de crescer durante alguns meses, heresia imperdoável num mundo em que todo crescimento é tratado como virtude.

Crescimento financiado de maneira ruim não é crescimento.

É fragilidade aumentando de tamanho.

O broker que só ganha com crédito possui dificuldade para dizer isso.

O advisor do patrimônio deveria conseguir.

É uma diferença de posição.

Talvez por isso eu esteja menos interessado em construir uma identidade pública de “corretor de crédito”. Seria reduzir a atividade antes de saber até onde ela pode chegar.

Prefiro continuar operando.

Aprender.

Construir relações.

Ver como as instituições pensam.

Descobrir onde a documentação trava.

Entender quais garantias mudam uma decisão.

Conhecer os fundos.

Os bancos.

Quem responde rápido.

Quem promete e não executa.

Qual instituição gosta de qual risco.

Há uma inteligência que só aparece depois de algumas dezenas de situações reais.

Não se aprende olhando uma tabela de taxas.

Mercado financeiro é feito de políticas formais e comportamentos informais.

Uma instituição pode teoricamente conceder determinado crédito e, na prática, possuir pouco interesse.

Outra pode nunca ter divulgado determinada estrutura e estar disposta a estudá-la se o deal vier da pessoa certa.

Isso não aparece no site.

Talvez seja exatamente aí que relacionamento vira acesso.

A expressão acesso exclusivo costuma ser utilizada de maneira vulgar no mercado de investimentos. Parece que um produto fica melhor quando poucas pessoas podem comprá-lo.

Já escrevi bastante sobre o perigo dessa lógica.

Exclusividade não melhora ativo.

Mas acesso pode criar oportunidade econômica real.

Há uma diferença.

Um fundo disponível apenas para clientes de determinada plataforma não é automaticamente melhor por isso.

Uma empresa negociada privadamente antes de iniciar processo competitivo pode efetivamente oferecer melhor preço a quem recebeu a primeira ligação.

Um imóvel off market pode ter termos diferentes porque o proprietário valoriza discrição e execução rápida.

Um crédito privado pode oferecer spread interessante porque poucas fontes compreenderam o risco.

O valor está no mecanismo que produziu o acesso.

Não no status de possuir acesso.

Essa distinção talvez seja uma das regras mais úteis para quem trabalha com famílias ricas.

Patrimônio atrai aduladores.

A exclusividade é uma forma sofisticada de adulação.

“Só estamos oferecendo para algumas famílias.”

Talvez seja verdade.

A resposta deveria continuar sendo: por quê?

Se a explicação econômica é boa, analisar.

Se a principal vantagem é poder contar posteriormente que teve acesso, talvez o investimento esteja servindo a uma necessidade psicológica.

Não patrimonial.

Multi family offices podem ter uma vantagem relevante nesse ponto porque acumulam rede.

Um escritório atendendo várias famílias pode ver oportunidades que uma família isolada não veria. Pode receber um club deal de outro family office, conhecer um empresário que procura capital ou dividir uma operação grande entre famílias cuja exposição individual ficaria mais adequada.

A Family Office Exchange vem falando justamente sobre esse movimento. Em fevereiro publicou que family offices estavam avançando em investimentos diretos em imóveis e empresas operacionais, construindo seus próprios caminhos para direct investing.

Há algo importante nessa direção.

A família deixa de ser apenas compradora de produtos financeiros fabricados por terceiros.

Pode tornar-se capital.

Credora.

Sócia.

Compradora direta.

Isso amplia brutalmente o universo disponível.

Também aumenta brutalmente a necessidade de infraestrutura.

Um fundo de crédito faz dezenas de coisas que o investidor de sua cota talvez nunca veja.

Originação.

Underwriting.

Documentação.

Monitoramento.

Cobrança.

Gestão de garantias.

Renegociação.

Quando uma família decide fazer crédito diretamente, não pode importar apenas a taxa do fundo e esquecer todo o trabalho que existia por baixo dela.

O spread remunera alguma coisa.

Às vezes remunera risco.

Às vezes trabalho.

Às vezes iliquidez.

Às vezes falta de competição.

Frequentemente uma mistura.

Um family office que entra em private credit diretamente precisa saber qual parte está tentando capturar e qual responsabilidade está assumindo junto.

Club deals são parecidos.

Dividir o cheque não divide automaticamente a responsabilidade intelectual.

Cinco famílias fazendo uma operação não transformam o underwriting numa democracia onde o número de participantes melhora a probabilidade.

Todos podem estar errados juntos.

Na verdade, é bastante confortável estar errado junto de pessoas respeitáveis.

O erro coletivo oferece desculpa.

“Todos acreditavam.”

O patrimônio continua perdido.

Talvez um bom family office deva proteger a família justamente dessa tentação social.

O fato de determinada família conhecida estar investindo pode ser uma informação.

Nunca deveria ser tese suficiente.

Isso é ainda mais importante agora que eu mesmo começo a circular entre empresários e fontes de capital. Percebo como reputação consegue acelerar uma operação antes mesmo de os documentos chegarem.

“Foi fulano que trouxe.”

A frase muda o nível inicial de atenção.

Não aprova nada.

Mas abre a porta.

Esse é um ativo.

Quero tratá-lo como tal.

Não gastar uma boa relação apresentando qualquer coisa.

Talvez o erro mais caro do intermediário seja imaginar que suas relações são infinitas porque não aparecem no balanço.

Não são.

Cada vez que peço atenção, consumo alguma coisa.

Se a operação é irrelevante, inadequada ou mal preparada, a próxima ligação vale um pouco menos.

Reputação possui spread.

A instituição começa a aplicar um desconto mental às operações do broker.

“Precisamos olhar com cuidado porque ele manda qualquer coisa.”

No sentido inverso, existe prêmio.

“Se veio dele, provavelmente já está minimamente organizado.”

Esse prêmio talvez seja um dos maiores ativos que um loan broker possa construir.

Não precisa convencer o banco de que todas as suas operações serão aprovadas.

Seria impossível.

Precisa convencer que nenhuma é enviada sem motivo.

Essa é uma diferença enorme.

E não pode ser comprada.

Precisa ser acumulada operação por operação.

Talvez seja por isso que estou confortável em permanecer low profile.

O mercado relevante é pequeno.

Não preciso que o Brasil inteiro saiba que intermedio crédito.

Preciso que alguns empresários confiem que não transformarei suas necessidades financeiras em leilão público e que algumas fontes de capital saibam que não usarei seu tempo como lixeira de operação.

Há uma espécie de intimidade profissional nisso.

Quanto maior a operação, mais valiosa.

Um empresário não quer necessariamente que fornecedores saibam que procura funding.

Pode estar perfeitamente saudável e ainda assim a informação produzir interpretações.

Crédito privado possui uma dimensão de confidencialidade que o varejo não tem.

O bom broker administra também a narrativa.

Não no sentido de esconder problema.

No sentido oposto: evitar criar problema distribuindo informação sem necessidade.

Uma operação enviada indiscriminadamente pode começar a parecer rejeitada antes mesmo de ser analisada corretamente.

O mercado privado é pequeno o suficiente para histórias viajarem.

Isso exige precisão.

Se vou enviar, preciso saber por quê.

Para quem.

Em que ordem.

Talvez originação seja, entre outras coisas, gestão de escassez informacional.

Quanto mais gente vê, menos privada a operação se torna.

Nem sempre maior distribuição melhora o resultado.

Em investimentos públicos, liquidez é frequentemente benefício.

Em operações privadas, excesso de exposição pode reduzir valor.

O empresário que vende uma empresa para o mercado inteiro talvez consiga preço maior, mas perca confidencialidade.

A família que compra off market pode conseguir um desconto justamente por oferecer certeza de fechamento sem processo competitivo.

O tomador pode conseguir uma boa estrutura com duas fontes bem escolhidas em vez de apresentar a demanda para vinte.

A distribuição ótima depende do problema.

Isso parece óbvio depois de alguns meses no meio.

Não parecia antes.

Talvez experiência seja exatamente a coleção das coisas que parecem óbvias depois que custaram tempo suficiente.

Outra coisa que começou a ficar óbvia neste ano é que os bancos talvez não conservem para sempre uma vantagem que durante décadas foi tratada quase como lei natural: controlar os dados do cliente.

O Banco Central divulgou nesta semana as diretrizes do que chama de Open Banking. Há muita coisa técnica ainda por ser definida, cronograma, regulamentação e implementação. É cedo para saber exatamente no que isso resultará.

Mas uma frase me chamou atenção.

Os dados bancários pertencem aos clientes, não às instituições financeiras.

Se isso realmente avançar, é uma mudança conceitual enorme.

Até aqui, abrir uma conta em determinado banco significa criar ali uma história que outra instituição não consegue enxergar com a mesma facilidade. Movimentação, produtos contratados, operações de crédito, comportamento transacional. O banco possui uma vantagem informacional construída pela relação.

O cliente pode mudar.

A história não viaja tão facilmente.

Open Banking pretende permitir, com autorização do cliente, que dados e serviços sejam compartilhados entre instituições através de infraestruturas tecnológicas integradas.

Isso significa que parte da vantagem informacional do banco pode se tornar portável.

O cliente leva o contexto.

Talvez não todo.

Relacionamento continua existindo, interpretações continuam existindo, mas a matéria-prima fica menos presa.

Isso pode alterar profundamente a competição no crédito.

Um novo lender poderá avaliar uma pessoa ou empresa com informação que antes estava concentrada no banco atual.

O cliente poderá comparar.

Talvez consolidar contas.

Talvez receber ofertas diferentes baseadas na mesma realidade financeira.

Não quero correr demais na conclusão.

Projetos regulatórios podem mudar. Tecnologia pode atrasar. A experiência real pode ficar muito aquém da promessa.

Mas o princípio é interessante o suficiente para guardar.

Se os dados pertencem ao cliente, talvez a relação financeira não precise pertencer ao banco.

Essa frase parece pequena.

Talvez não seja.

Ela converge com aquilo que tenho observado no family office e no loan broking.

A instituição que guarda o dinheiro não precisa necessariamente ser a instituição que organiza a decisão.

Uma família pode custodiar ativos em vários bancos e manter a inteligência patrimonial em outro lugar.

Um empresário pode possuir conta em três instituições e utilizar um advisor independente para coordenar a estrutura de capital.

Um broker pode acessar diferentes lenders sem precisar transformar-se em funcionário informal de nenhum deles.

O sistema financeiro começa a se decompor em funções.

Custódia.

Dados.

Crédito.

Investimento.

Distribuição.

Aconselhamento.

Originação.

Quem antes controlava tudo porque controlava a conta talvez precise competir em cada camada.

Isso pode produzir uma oportunidade enorme para intermediários independentes.

Pode produzir também uma quantidade enorme de intermediários inúteis.

A abertura de infraestrutura não cria automaticamente bom serviço.

Quando a barreira cai, entram bons e ruins.

Talvez aumente ainda mais o valor da confiança.

Se o cliente consegue mover seus dados e produtos com facilidade, a relação passa a depender menos de aprisionamento e mais de vontade.

Isso é saudável.

Também é exigente.

O advisor terá de merecer permanecer.

Não poderá confiar apenas no custo de saída.

Talvez seja isso que eu queira para qualquer negócio que construir.

Cliente livre o suficiente para sair.

Relação boa o suficiente para que prefira ficar.

Lock-in tecnológico é confortável para a empresa.

Confiança voluntária parece um ativo melhor.

É mais difícil.

Mas provavelmente envelhece melhor.

Isso vale para loan broking.

O empresário não me deve fidelidade.

Se encontrar alguém melhor, deveria usar.

Minha tarefa é aumentar o custo econômico de me substituir através de conhecimento, não o custo burocrático através de aprisionamento.

Conhecer o histórico.

As instituições.

O patrimônio.

As preferências.

Operações anteriores.

O que funcionou.

O que deu problema.

Esse contexto acumulado precisa tornar minha presença útil.

Se o cliente permanece apenas porque trocar dá trabalho, construí uma prisão.

Não uma relação.

Talvez family offices devam pensar da mesma maneira.

Quanto mais sensível o patrimônio, maior a tendência de considerar retenção como objetivo. Natural.

Mas o melhor moat talvez seja memória e confiança.

A família permanece porque o escritório conhece a história inteira e continua entregando boa coordenação.

Não porque seus ativos estejam presos.

Isso também impõe uma necessidade operacional: memória não pode permanecer apenas na cabeça do advisor.

Quanto mais faço operações, mais percebo isso.

Hoje ainda consigo lembrar de grande parte dos detalhes. Quem pediu. Quem recebeu. Por que determinado banco recusou. Qual garantia foi discutida. Qual proposta foi melhor.

Mas memória não escala.

É quase inevitável.

Se o negócio cresce, aquilo que hoje é conhecimento torna-se confusão.

É necessário registrar.

Organizar.

Ter um lugar onde a operação exista.

Por enquanto uso as ferramentas disponíveis, como todo mundo.

Planilha.

E-mail.

Pasta.

Mensagem.

Agenda.

Funciona.

Até deixar de funcionar.

Ainda não sei onde está o limite.

Mas suspeito que este seja um problema maior do que aparenta.

A maior parte das empresas percebe tarde demais que um processo dependia da cabeça de alguém.

Quando esse alguém fica sobrecarregado, sai ou simplesmente esquece, descobrimos que não havia processo.

Havia memória competente.

Loan broking parece especialmente vulnerável a isso porque as operações possuem muitos estados e participantes.

Cliente enviou documento.

Banco pediu outro.

Fundo recusou.

Outra instituição está analisando.

Garantia precisa de laudo.

Proposta venceu.

Comissão precisa ser dividida.

Há uma quantidade absurda de pequenas informações ao redor de uma decisão grande.

Talvez seja por isso que tantos brokers permaneçam pequenos.

Não falta capacidade comercial.

Falta capacidade operacional.

O profissional consegue originar mais do que consegue acompanhar.

Seu sucesso comercial cria seu gargalo.

É um problema interessante porque o mesmo relacionamento que produz crescimento começa a ser prejudicado pelo crescimento.

Quanto mais deals entram, menos tempo existe para falar com cada cliente.

Quanto menos tempo, pior o contexto.

Quanto pior o contexto, o broker começa a se parecer com o intermediário genérico que inicialmente não queria ser.

Escala pode destruir diferenciação.

Isso deveria ser pensado cedo.

Um multi family office enfrenta problema parecido. Quanto mais famílias atende, maior a quantidade de patrimônio que consegue coordenar e maior a eficiência potencial da estrutura compartilhada.

Mas cada nova família traz um universo.

Empresas.

Filhos.

Sócios.

Contas.

Bancos.

Imóveis.

Trusts eventualmente.

Investimentos diretos.

Necessidades.

Preferências.

Relações.

Se a infraestrutura não acompanha, o escritório deixa de conhecer famílias e começa a administrar cadastros.

Talvez tecnologia precise entrar exatamente aí.

Não como substituição do advisor.

Como memória.

Organização.

Infraestrutura que permita à pessoa continuar fazendo aquilo que só a pessoa deveria fazer.

Julgar.

Negociar.

Compreender contexto.

Construir confiança.

Tudo que não exige essas habilidades deveria provavelmente ser retirado de seu caminho.

Essa é ainda apenas uma intuição.

Estou longe de saber como construir tal sistema.

Mas a experiência prática deste ano começa a produzir uma mudança importante. Durante muito tempo pensei que meu objetivo fosse aprender a vender dinheiro.

Agora vejo que isso descreve apenas a superfície.

O que realmente estou aprendendo é a organizar relações entre patrimônio, necessidade e capital.

O dinheiro é aquilo que passa pelo meio.

Talvez eu esteja entrando no mercado financeiro por uma porta menos convencional.

Não comecei num grande banco.

Não tenho uma mesa com meu nome dentro de uma instituição famosa.

Não estou construindo minha identidade ao redor de um cargo.

Estou aprendendo diretamente nas operações.

Talvez isso tenha desvantagens. Certamente possui.

Um banco oferece volume de experiência, treinamento, sistemas, colegas e exposição a estruturas que demorarei mais para encontrar sozinho.

Mas existe uma vantagem.

Não preciso olhar o mundo através de um único balanço.

Posso aprender a pensar a partir da operação.

O cliente aparece.

Depois procuro onde a operação pertence.

Isso talvez forme uma espécie diferente de financista.

Menos especialista numa instituição.

Mais especialista em navegar instituições.

Não sei qual das duas formações será melhor no futuro.

Sei apenas que esta combina com a pergunta que tenho carregado há dez anos.

Como vender dinheiro sem ser dono dele?

Hoje consigo responder de maneira menos infantil.

Construindo confiança com quem precisa.

Construindo acesso com quem possui.

Entendendo suficientemente o problema para não confundir um com o outro.

E sabendo que a operação termina muito depois de receber a comissão.

Talvez o maior aprendizado deste começo seja precisamente esse: o capital não recompensa necessariamente quem o possui. Recompensa também quem consegue colocá-lo em movimento com menor fricção e sem destruir confiança no processo.

É uma profissão de ponte, ainda que eu já tenha aprendido que a metáfora da ponte é limitada.

Talvez seja mais próximo de ser um arquiteto de rotas.

Não preciso possuir os carros.

Nem as cidades.

Preciso conhecer o caminho.

E construir reputação suficiente para que as pessoas aceitem viajar por ele comigo.

Não quero anunciar isso demais.

Há coisas que ficam menores quando precisam ser constantemente declaradas.

Prefiro que alguns empresários saibam.

Alguns bancos.

Alguns fundos.

Algumas famílias.

Se o trabalho for bom, a rede crescerá por consequência.

Caso contrário, publicidade apenas fará o fracasso chegar a mais gente.

Há alguma paz em trabalhar dessa maneira.

Sem necessidade de parecer financista.

Apenas fazendo finanças.

Leo Bentier

XThreadsin