O dinheiro mais barato nem sempre é o melhor dinheiro.
Estrutura, prazo, garantia e flexibilidade podem valer mais do que alguns pontos na taxa.
29 de março de 2021
O dinheiro mais barato nem sempre é o melhor dinheiro.
Estrutura, prazo, garantia e flexibilidade podem valer mais do que alguns pontos na taxa.
Durante boa parte do último ano, crédito significou disponibilidade. A pandemia retirou do mercado a ilusão confortável de que uma linha existente continuará existindo simplesmente porque existia ontem. Empresas que durante anos discutiram décimos de taxa passaram a perguntar quem ainda estava emprestando. Relações bancárias que pareciam profundas revelaram-se comerciais. Fundos interromperam operações, políticas mudaram e o empresário que acreditava possuir cinco fontes de capital descobriu que talvez possuísse cinco números de telefone.
A lição foi útil. Acesso vem antes de preço.
Agora começo a perceber que até essa conclusão precisa de uma segunda camada. Não basta conseguir dinheiro. Duas ofertas de R$ 10 milhões não são economicamente equivalentes só porque ambas colocam R$ 10 milhões na conta do cliente. Um crédito pode custar menos na taxa e cobrar muito mais em liberdade. Outro pode parecer caro no primeiro dia e revelar-se barato justamente porque não obriga o tomador a tomar a pior decisão no terceiro ano.
Talvez seja um erro infantil imaginar que o preço do dinheiro esteja contido integralmente nos juros.
A taxa é apenas aquilo que podemos colocar facilmente numa comparação.
O restante exige leitura.
Prazo. Amortização. Garantias. Covenants. Possibilidade de pré-pagamento. Obrigações de liquidez. Eventos de default. Margem. Recourse. Condições para renovação. Concentração. O direito de o credor pedir mais colateral quando o valor dos ativos cai. A facilidade com que uma estrutura pode transformar uma oscilação temporária em liquidação permanente.
É precisamente aí que uma história que começou a se revelar nos últimos dias me parece tão instrutiva.
Um family office americano chamado Archegos Capital Management aparentemente foi incapaz de atender chamadas de margem feitas por alguns dos maiores bancos de investimento do mundo. Na sexta-feira começaram vendas enormes de ações ligadas às posições da firma. Hoje a Nomura comunicou que pode enfrentar algo próximo de US$ 2 bilhões em perdas relacionadas a um cliente nos Estados Unidos. O Credit Suisse também confirmou que um fundo não cumpriu chamadas de margem e advertiu que o prejuízo decorrente do encerramento das posições pode ser material.
Ainda é cedo para saber o tamanho final do problema. Também seria desonesto fingir conhecer hoje tudo aquilo que provavelmente será reconstruído por investigações durante os próximos meses.
Mas o mecanismo já é suficientemente interessante.
A Archegos utilizava instrumentos que lhe permitiam obter exposição econômica a grandes posições em ações sem necessariamente aparecer como proprietária direta de todas elas. Bancos forneciam essa exposição e financiavam parte da estrutura. Enquanto os ativos subiam e a margem era suficiente, a alavancagem parecia funcionar de maneira extraordinária. Depois algumas posições começaram a cair. O valor do colateral diminuiu. Os bancos pediram mais dinheiro. Em determinado momento, o family office não conseguiu entregar.
Nesse instante, a taxa cobrada pelo financiamento tornou-se quase irrelevante.
O problema passou a ser a estrutura.
Isso deveria interessar particularmente a qualquer pessoa que fale sobre riqueza e family offices como se esses termos fossem sinônimos de prudência.
Não são.
Uma estrutura que administra bilhões continua perfeitamente capaz de cometer um erro de bilhões.
O patrimônio não imuniza ninguém contra fragilidade. Às vezes apenas permite construí-la em escala maior.
Há alguma ironia no fato de que um family office, expressão normalmente associada à preservação de uma fortuna, possa se tornar protagonista de uma situação cuja mecânica é essencialmente a mesma que destrói pequenos investidores alavancados: o ativo cai, o credor pede margem, o dinheiro não chega, o ativo precisa ser vendido.
Os instrumentos são mais sofisticados.
A aritmética permanece brutalmente vulgar.
Você deve.
O colateral caiu.
Traga dinheiro.
Se não consegue, alguém vende.
Talvez essa seja uma boa razão para nunca confundir complexidade com inteligência financeira. A sofisticação de uma estrutura não reduz automaticamente sua fragilidade. Em alguns casos, apenas torna mais difícil enxergar onde a fragilidade está.
Uma dívida comum possui a gentileza de ser explícita. Sabemos quanto foi tomado, qual é o prazo e quanto deverá ser pago.
Uma exposição construída através de derivativos, margem e diferentes contrapartes pode permitir que uma posição econômica enorme exista sem que sua aparência inicial produza a mesma sensação de alavancagem.
O risco não precisa ser invisível para ser ignorado.
Basta ser confortável enquanto está funcionando.
Isso é algo que venho tentando aplicar também às operações muito menores que passam pela minha mesa como loan broker. O cliente quase sempre começa perguntando pela taxa. É compreensível. É o número mais fácil de entender e, portanto, o mais fácil de comparar.
“Quanto o banco cobra?”
“Conseguiu mais barato?”
“Fulano me ofereceu dois pontos abaixo.”
Às vezes esses dois pontos são relevantes. Não tenho nenhuma intenção de fingir que custo de capital não importa. Para uma empresa que utiliza crédito de maneira recorrente, algumas diferenças de taxa podem representar milhões ao longo dos anos.
Mas preço sem estrutura é informação incompleta.
Tenho visto casos em que o cliente se dispõe a oferecer uma garantia muito mais importante para economizar relativamente pouco no custo. Outros aceitam uma amortização agressiva que pode apertar o fluxo exatamente no momento em que o projeto financiado ainda está amadurecendo. Há quem prefira uma linha aparentemente barata, mas curta, financiando um ativo que precisará de anos para produzir caixa.
O empresário comemora a taxa.
O vencimento fica esperando em silêncio.
Talvez o bom trabalho financeiro comece por mudar a pergunta. Em vez de “qual dinheiro é mais barato?”, perguntar “qual capital combina melhor com aquilo que estamos financiando?”.
Uma máquina com vida econômica de dez anos não deveria necessariamente ser financiada com capital que depende de renovação a cada seis meses apenas porque a taxa inicial ficou bonita.
Um imóvel não deveria ser dado integralmente em garantia quando uma estrutura menos onerosa poderia resolver a mesma necessidade.
Uma família não deveria comprometer o ativo que lhe dá maior opcionalidade para reduzir modestamente o spread de uma operação que pouco altera seu patrimônio.
Existe uma diferença entre otimizar preço e otimizar a posição inteira.
É nesse ponto que minha atividade como broker começa a se aproximar cada vez mais da lógica de um family office.
Se estou olhando apenas para a dívida, a menor taxa pode ganhar.
Se consigo olhar para o patrimônio do empresário, a resposta muda.
A empresa possui determinado fluxo.
A família possui imóveis.
Há investimentos financeiros.
Existem participações societárias.
Talvez haja recebíveis.
Outras dívidas.
Garantias já comprometidas.
Necessidade de liquidez futura.
A linha que parece mais barata isoladamente pode usar justamente o ativo que deveria permanecer livre para uma emergência.
O custo daquela garantia não aparece no boleto do banco.
Aparece na opção que desapareceu.
Esse talvez seja um dos conceitos financeiros mais difíceis de vender porque não possui número óbvio. É simples mostrar que uma operação custa 1,1% ao mês e outra 1,3%. É muito mais difícil colocar numa tabela o valor de manter determinado imóvel desonerado durante os próximos cinco anos.
Mas ausência de preço visível não significa ausência de valor.
Uma garantia livre é uma opção.
Uma linha disponível é uma opção.
Um prazo longo é uma opção.
A possibilidade de pré-pagar sem penalidade é uma opção.
Uma obrigação de margin call é o contrário: pode retirar opções exatamente quando você mais precisa delas.
Talvez as melhores estruturas patrimoniais sejam aquelas que preservam o maior número possível de boas decisões futuras.
Isso é muito diferente de maximizar retorno presente.
O family office deveria compreender essa diferença melhor que qualquer banco.
A instituição financeira que concede crédito precisa proteger seu próprio capital. Está correto. Não foi criada para maximizar a liberdade patrimonial da família tomadora.
O family office deveria estar do outro lado da mesa.
Seu trabalho não é achar injusto que o banco queira proteção. É compreender quanto dessa proteção faz sentido conceder e quanto custa concedê-la dentro do patrimônio inteiro.
Esse tipo de visão muda a negociação.
Suponha que uma família possua uma companhia operacional avaliada em R$ 100 milhões, imóveis de R$ 30 milhões e investimentos líquidos de R$ 20 milhões. Precisa levantar R$ 10 milhões para uma oportunidade empresarial.
Um banco oferece a 1% ao mês contra um imóvel de R$ 20 milhões.
Outro oferece 1,2% contra recebíveis da empresa.
Um fundo oferece 1,5%, prazo mais longo, amortização no final e covenant mais flexível.
Qual é o dinheiro mais barato?
A pergunta parece ter resposta aritmética.
Não possui.
Depende da finalidade, do prazo esperado para retorno da oportunidade, da importância do imóvel para a família, da volatilidade dos recebíveis, da capacidade de refinanciamento e do que cada estrutura obriga a família a fazer se algo der errado.
Talvez o financiamento de 1,5% seja muito caro.
Talvez seja o mais barato dos três.
Isso só pode ser entendido olhando para a estrutura.
Esse é o tipo de análise que me faz desconfiar cada vez mais de tabelas de comparação financeira que reduzem decisões complexas a uma única coluna de custo.
O mercado gosta de rankings porque rankings dispensam julgamento.
Menor taxa.
Maior retorno.
Menor fee.
Maior Sharpe.
O número produz conforto. A decisão parece objetiva.
Mas muitas das variáveis que mais importam em patrimônios grandes não se deixam ordenar facilmente.
Liquidez.
Controle.
Flexibilidade.
Confidencialidade.
Relacionamento.
Capacidade de agir rapidamente.
Qualidade do credor.
Possibilidade de renegociação.
A experiência de quem estará do outro lado se as coisas piorarem.
Essa última parece particularmente subestimada.
Nem todo credor é igual quando aparece um problema.
Uma instituição pode oferecer taxa excelente e tornar-se extremamente rígida diante da primeira violação técnica.
Outra pode cobrar mais, conhecer profundamente o setor e possuir capacidade real de renegociar sem transformar cada dificuldade operacional numa ameaça de execução.
Não estou sugerindo que devemos pagar juros maiores por simpatia.
Refiro-me à natureza do capital.
Capital possui personalidade institucional.
Fundos possuem mandatos.
Bancos possuem políticas.
Family offices possuem horizontes.
Investidores privados possuem preferências.
Alguns precisam sair numa determinada data.
Outros podem esperar.
Alguns precisam marcar ativos a mercado.
Outros não.
Alguns possuem comitês distantes do cliente.
Outros conseguem colocar o dono do capital na mesma reunião.
Isso muda o comportamento da dívida durante a crise.
Talvez esse seja um dos grandes diferenciais do crédito off market quando bem utilizado.
Uma operação privada entre uma família e uma empresa pode ser mais cara que determinado produto bancário, mas oferecer estrutura completamente diferente. O lender privado pode aceitar um ativo específico, prazo maior, amortização mais adequada ou uma combinação que o banco padronizado não possui.
Não é automaticamente melhor.
Pode ser muito pior.
A flexibilidade privada também pode esconder documentação fraca, dependência excessiva do relacionamento ou risco mal precificado.
Mas existe espaço econômico precisamente porque nem toda necessidade cabe numa prateleira.
Isso é algo que continuo encontrando no trabalho.
O empresário não vive em produtos financeiros. Vive no próprio negócio.
O produto é uma tentativa do sistema financeiro de encaixar sua necessidade numa estrutura repetível.
Quanto mais particular a situação, maior a chance de existir um desencaixe.
É aí que o loan broker pode produzir valor.
Não encontrando “qualquer dinheiro”, mas compreendendo a geometria da operação.
Talvez um fundo de crédito especializado faça sentido.
Talvez um banco.
Talvez uma estrutura imobiliária.
Talvez um investidor privado.
Talvez um club deal entre algumas famílias.
Talvez nenhuma dívida faça sentido.
Essa última hipótese deveria permanecer disponível.
Há um problema estrutural quando o intermediário é remunerado exclusivamente se encontra um credor: a solução “não tome dinheiro” torna-se economicamente desagradável para ele.
É um conflito simples e poderoso.
Não é necessário ser desonesto para sofrer sua influência.
A pessoa trabalha semanas sobre uma operação, conhece o cliente, fala com instituições, recebe uma proposta e começa a desejar que alguma coisa feche. Depois encontra razões intelectualmente sofisticadas para explicar por que aquilo que deseja também é aquilo que o cliente precisa.
Somos muito bons nisso.
Talvez seja uma das razões pelas quais eu queira avançar cada vez mais para uma relação semelhante à de um family office e menos à de um broker puramente transacional.
Quanto mais ampla a relação, menor a necessidade de monetizar toda demanda como crédito.
Se a família me procura apenas para empréstimo, minha utilidade termina quando não existe empréstimo.
Se me procura para organizar sua vida financeira, crédito é apenas uma ferramenta possível.
A diferença de incentivo é grande.
É também mais difícil operacionalmente.
Conhecer uma família exige muito mais contexto do que conhecer uma operação.
É preciso entender empresas, imóveis, passivos, investimentos, objetivos, concentração, sucessão e preferências. Um multi family office que faça isso para dezenas de famílias precisa preservar profundidade sem transformar cada cliente em mais uma linha num CRM.
Esse problema continua me interessando.
A indústria financeira consegue escalar produto com enorme eficiência.
Escalar contexto é muito mais difícil.
Talvez por isso grandes instituições tendam inevitavelmente a segmentar. Private, alta renda, corporate, middle market. Dentro de cada segmento surgem regras, produtos e políticas.
Isso permite atender milhares.
Mas algo é perdido.
A singularidade econômica de cada patrimônio.
Um multi family office deveria conseguir permanecer no meio. Compartilhar infraestrutura suficiente para produzir eficiência e manter contexto suficiente para não virar uma prateleira de produtos com nome mais sofisticado.
Não sei se é fácil.
Provavelmente não.
Se fosse fácil, todo private bank se chamaria family office e o problema estaria resolvido.
O nome é barato.
O alinhamento é difícil.
Talvez isso seja especialmente evidente quando falamos de investimentos privados e club deals.
Uma família entra numa operação porque conhece outra família. O acesso é excelente. A confiança prévia reduz tempo. Todos estão animados. O investimento parece possuir exatamente aquilo que o produto de prateleira não oferece: exclusividade, participação direta, influência e melhor alinhamento.
Depois vem a parte pouco fotografada.
Quem decide se a empresa precisa de mais capital?
Quem aceita diluição?
Quem representa as famílias?
O que ocorre se uma delas precisar de liquidez?
Quem acompanha informações?
Qual é a governança?
Quais direitos foram negociados?
Quem pode vender primeiro?
A estrutura talvez seja ainda mais importante no club deal do que num investimento convencional, porque existe uma segunda camada de relações além do ativo.
Não basta a empresa funcionar.
Os coinvestidores também precisam conseguir funcionar juntos.
Um bom deal com governança ruim pode tornar-se um investimento medíocre.
Um investimento medíocre com governança ruim pode tornar-se uma reunião eterna entre advogados.
Talvez seja por isso que estruturas simples tenham um valor que não aparece no IRR projetado.
Cada direito adicional pode proteger.
Também pode criar fricção.
O objetivo não deveria ser colocar o maior número possível de cláusulas no contrato, mas compreender quais eventos realmente importam e quem precisa possuir qual poder quando eles acontecerem.
Isso vale igualmente para dívida.
Uma garantia excessiva protege o credor.
Pode destruir flexibilidade do tomador.
Um covenant frouxo protege flexibilidade.
Pode deixar o credor exposto demais.
A boa estrutura não maximiza um lado.
Distribui riscos de maneira que a operação permaneça aceitável para ambos.
É uma espécie de engenharia de sobrevivência.
Talvez por isso eu esteja menos impressionado por quem consegue a menor taxa e mais interessado por quem consegue montar uma operação em que ninguém precisa rezar para o refinanciamento ocorrer exatamente no mês planejado.
Há muito dinheiro “barato” que permanece barato apenas enquanto tudo corre bem.
Quando a estrutura exige renovação constante, preço futuro passa a depender de um mercado que o tomador não controla.
Esse é um custo escondido.
A pandemia mostrou isso em 2020. Empresas que haviam refinanciado dívida curta durante anos descobriram que sua estrutura dependia da disposição permanente de terceiros.
Agora Archegos mostra uma versão extrema do mesmo princípio no mercado de capitais.
Uma posição alavancada pode parecer extraordinariamente lucrativa enquanto a margem não é chamada. O problema não é necessariamente a primeira queda do ativo. É aquilo que a queda obriga o investidor a fazer.
Se puder esperar, talvez sobreviva.
Se precisa entregar bilhões em caixa imediatamente, a queda se transforma em evento operacional.
Esse mecanismo é importante demais para ficar restrito a hedge funds.
Uma família pode construir fragilidade semelhante sem utilizar nenhum derivativo.
Basta possuir ativos ilíquidos financiados por passivos curtos.
Um empresário pode fazer o mesmo financiando crescimento de longo prazo com capital de giro renovável.
Um investidor imobiliário pode comprar imóveis com dívida cuja amortização exige vendas contínuas.
Os instrumentos mudam.
O padrão permanece.
Financiar o lento com dinheiro rápido funciona até o rápido desaparecer.
Esse talvez seja um dos princípios que eu gostaria que qualquer family office incorporasse de maneira quase obsessiva: duration dos ativos e duration dos passivos precisam conversar.
Não precisam ser iguais.
Mas o descasamento precisa ser compreendido.
Uma família com grande patrimônio imobiliário pode suportar dívida se possui renda, caixa e horizonte compatíveis.
Outra com patrimônio nominalmente maior pode ser muito mais frágil se depende de refinanciamento anual.
Patrimônio líquido não explica sozinho.
O calendário volta a aparecer.
É curioso como minha compreensão de finanças continua retornando ao tempo.
Quando ouvi pela primeira vez que “nada dá mais dinheiro do que vender dinheiro”, imaginei que a genialidade estivesse nos juros.
Hoje vejo que o juro talvez seja apenas a superfície.
Quem realmente entende dinheiro precisa entender tempo, informação, estrutura e opção.
É possível cobrar pouco e construir uma dívida perigosa.
Cobrar mais e construir uma dívida útil.
A taxa só faz sentido dentro da arquitetura.
Isso também vale para investimentos.
Um título pagando 15% não é necessariamente melhor que outro pagando 10%.
Talvez o primeiro esteja subordinado, ilíquido, concentrado e sem garantia adequada.
O investidor de family office que procura apenas yield pode repetir, do outro lado, o mesmo erro do empresário que procura apenas menor taxa.
Ambos otimizam a variável mais visível.
Um quer pagar menos.
O outro receber mais.
Nenhum perguntou o suficiente sobre a estrutura.
Talvez um bom family office precise conseguir sentar dos dois lados da mesa intelectualmente.
Quando a família é tomadora, pensar como credor para compreender o que está oferecendo e por que a taxa existe.
Quando é credora, pensar como tomadora para compreender de onde virá o pagamento e quais incentivos a estrutura cria.
Quando entra num club deal de equity, pensar como comprador e vendedor.
Essa capacidade de mudar de perspectiva pode valer mais do que especialização excessiva num único produto.
A fortuna não vive em apenas um produto.
Por isso continuo achando que o family office precisa ser um generalista que sabe contratar especialistas.
Não quero que o advisor de uma família seja o melhor advogado, o melhor gestor, o melhor tributarista e o melhor credit officer do país. Seria provavelmente um homem insuportável e, ainda assim, medíocre em várias coisas.
Quero que saiba reconhecer quando cada competência é necessária e coordenar as decisões para que os especialistas não otimizem partes destruindo o todo.
Um advogado pode produzir a estrutura juridicamente mais protegida.
Talvez ela seja operacionalmente péssima.
Um banco pode produzir a dívida de menor risco para o banco.
Talvez seja inadequada para a família.
Um gestor pode montar uma carteira eficiente isoladamente.
Talvez aumente exatamente o risco econômico ao qual a família já está exposta através da empresa.
Alguém precisa manter o todo na sala.
Esse papel parece cada vez mais importante quanto maior o patrimônio.
Complexidade aumenta mais rápido do que riqueza.
Uma família pode duplicar o patrimônio e triplicar a quantidade de relações, veículos, documentos, bancos, investimentos e decisões necessárias para administrá-lo.
Talvez por isso alguns patrimônios enormes pareçam surpreendentemente desorganizados.
A fortuna cresceu.
A instituição ao redor dela não.
Há uma espécie de dívida operacional acumulada.
No começo, o fundador consegue carregar tudo na cabeça.
Sabe quais imóveis possui, em qual banco está o dinheiro, quem é o gerente, quanto a empresa deve e para quem emprestou.
Depois entram filhos, holdings, investimentos internacionais, fundos, créditos privados, outros bancos, participações minoritárias, club deals e estruturas sucessórias.
Em algum momento, confiar na memória deixa de ser simplicidade.
Vira risco.
Acredito que um multi family office possa ter muito valor exatamente aí. Não porque famílias devam terceirizar julgamento. Mas porque a infraestrutura para organizar informação, acompanhar operações e preservar memória pode ser compartilhada.
Isso também vale para brokers.
Nos últimos dois anos percebi que a capacidade de originar pode crescer mais rápido que a capacidade operacional de acompanhar os deals.
Cada crédito tem documentos, instituições, propostas, pendências, garantias, follow-ups e decisões.
O bom broker deveria passar seu tempo entendendo a operação, falando com o cliente e negociando capital.
Não procurando a última versão de um PDF.
Ainda assim, uma quantidade enorme de tempo vai para esse trabalho.
É uma ineficiência aparentemente pequena que se torna estrutural quando o número de operações aumenta.
Talvez haja uma oportunidade de profissionalização aí.
O mercado de crédito privado e originação ainda parece artesanal em muitos lugares. Bons profissionais constroem enormes redes e depois administram a inteligência dessas redes usando ferramentas genéricas.
É estranho.
A indústria de tecnologia criou sistemas especializados para vendas, logística, marketing, desenvolvimento de software e quase qualquer atividade repetitiva. Em muitos mercados financeiros privados, parte relevante da operação continua dependente de e-mail, planilha e memória.
Isso funciona quando o profissional é pequeno.
Depois ele cresce e descobre que o próprio sucesso comercial destruiu sua capacidade operacional.
Uma empresa que não consegue absorver a própria originação possui um problema semelhante ao empresário que cresce sem capital de giro.
A demanda tornou-se fragilidade.
Talvez infraestrutura seja o capital de giro da informação.
Ainda não sei onde essa ideia me levará. Mas ela está ficando difícil de ignorar.
Se o valor de um loan broker está em relacionamento, contexto e julgamento, tudo que consome seu tempo sem utilizar nenhuma dessas três coisas deveria ser automatizado, organizado ou delegado.
O profissional não deveria gastar sua melhor hora renomeando documentos.
O family office também não.
Talvez a tecnologia mais valiosa para ambos não seja aquela que tenta substituir o julgamento financeiro. Seja a que permite que o julgamento permaneça humano ao retirar o trabalho que não precisa ser.
Isso me parece um problema muito mais real do que alguns discursos sobre inteligência artificial que começam a aparecer por aí. Ainda estamos longe de saber exatamente onde tudo isso irá. Prefiro não transformar promessa tecnológica em tese antes da hora.
Por enquanto, existe trabalho banal suficiente para eliminar sem precisar substituir ninguém.
Organizar.
Conciliar.
Lembrar.
Controlar.
Centralizar.
Mostrar contexto.
Se um sistema conseguir fazer isso bem, talvez o advisor consiga ser mais advisor.
E o broker, mais financista.
Volto então à questão da estrutura porque talvez essa seja a palavra que melhor una tudo.
Uma boa dívida é uma estrutura.
Um bom family office é uma estrutura.
Uma boa relação de coinvestimento é uma estrutura.
Uma empresa capaz de crescer sem perder controle depende de estrutura.
O patrimônio sem estrutura parece liberdade enquanto nada muda.
Depois descobrimos que liberdade dependia da boa memória de algumas pessoas e da disposição contínua de alguns bancos.
Não é suficiente.
Talvez seja por isso que a Archegos me pareça tão interessante mesmo antes de conhecermos toda a história. Não preciso saber hoje exatamente quanto cada banco perderá para reconhecer o mecanismo.
Um family office aparentemente muito rico conseguiu construir exposições suficientemente grandes para que uma queda de ativos produzisse chamadas de margem que não conseguiu satisfazer. Alguns dos maiores bancos do mundo agora precisam liquidar posições e calcular suas perdas.
Não faltou sofisticação.
Faltou alguma coisa na arquitetura de risco.
Talvez descubramos depois exatamente o quê.
Essa humildade temporal importa. Sempre é fácil escrever a história perfeita depois do acidente e explicar que todos os sinais eram óbvios. Talvez fossem. Talvez parte deles fosse.
Hoje, em 29 de março, o que sabemos é muito mais limitado.
E isso é suficiente.
Porque o princípio não depende de conhecer cada detalhe.
Alavancagem troca parte de seu futuro por capacidade presente.
Margem adiciona uma condição: o credor pode exigir que você prove continuamente que ainda possui recursos para sustentar a posição.
Se o ativo cai e o caixa não está disponível, o tempo da decisão deixa de ser seu.
Perder o controle do tempo é perder opção.
É exatamente aquilo que venho tentando evitar em crédito para empresários e aquilo que acredito que um family office deveria evitar no patrimônio.
Não transformar uma queda temporária em venda permanente.
Não transformar uma necessidade temporária em perda de um ativo estratégico.
Não transformar uma economia de taxa em dependência de refinanciamento.
Não comprometer garantias fundamentais por um benefício marginal.
Talvez esse conjunto de regras pareça conservador demais.
Não acho.
Conservador é alguém que evita risco.
Quero risco assimétrico.
Existe diferença.
Uma família pode assumir riscos grandes quando a perda é suportável e o ganho muda sua posição.
O que considero pouco inteligente é aceitar risco de ruína para obter ganhos que praticamente não alteram a vida.
Depois que uma fortuna já existe, determinadas apostas perdem sentido.
É a mudança de fase sobre a qual venho pensando há anos.
O fundador que construiu patrimônio concentrando capital na própria empresa provavelmente precisou correr riscos enormes. Se continuar tratando o patrimônio familiar inteiro como capital de risco depois de vencida essa fase, talvez esteja aplicando uma virtude fora do contexto que a tornou virtuosa.
A agressividade que cria pode destruir.
O family office deveria reconhecer essa mudança antes do fundador.
É uma função difícil porque envolve contrariar precisamente a pessoa cuja competência criou a fortuna.
Talvez seja por isso que bons conselheiros sejam raros.
Concordância é mais fácil de vender que prudência.
Se o empresário quer aumentar posição num ativo que já representa 80% de seu patrimônio, é confortável dizer que ele conhece seu negócio melhor que qualquer um.
Provavelmente conhece.
Esse não é o ponto.
O problema não é a probabilidade isolada de a empresa dar certo.
É a consequência se der errado.
Risco é probabilidade multiplicada por consequência, e pessoas bem-sucedidas tendem a prestar atenção exagerada à primeira porque seu histórico pessoal lhes ensinou que costumam acertar.
O patrimônio deveria prestar atenção à segunda.
Esse é talvez o ponto onde family office e Taleb se encontram intelectualmente: não precisamos saber qual será o próximo cisne para decidir que um único evento não deveria matar a família.
Estrutura antes de previsão.
Sobrevivência antes de otimização.
Isso não significa viver com medo.
Significa poder ser agressivo onde a assimetria é boa porque o restante da estrutura não depende daquela aposta.
A segurança permite a coragem.
Talvez seja essa uma definição melhor de patrimônio robusto.
O investidor que precisa que todas as posições sejam conservadoras talvez tenha construído uma estrutura ruim. Se existe um núcleo capaz de suportar erro, algumas bordas podem assumir riscos extraordinários.
Family offices podem usar club deals, private equity, venture, crédito privado ou ativos especiais exatamente dessa maneira.
Uma parcela do patrimônio busca assimetrias.
O patrimônio inteiro não é oferecido como garantia da tese.
Essa diferença parece óbvia quando escrita.
Archegos está mostrando que talvez nem sempre seja óbvia quando existe acesso abundante a alavancagem.
Capital barato possui uma forma particularmente perigosa de sedução. Faz com que aumentar exposição pareça racional porque o custo marginal é pequeno.
Até o custo deixar de ser a variável relevante.
Talvez esse seja o principal aprendizado que quero levar deste ano para minhas próprias operações.
Não vender taxa.
Vender estrutura.
Na verdade, nem vender estrutura.
Compreendê-la primeiro.
Quando um empresário me pedir o crédito mais barato, quero saber dizer que talvez a pergunta esteja errada.
Qual capital protege melhor a empresa?
Qual dá tempo suficiente?
Qual garantia faz sentido?
Qual preserva ativos estratégicos?
Qual reduz risco de refinanciamento?
Qual lender continua adequado se o cenário piorar?
Se a resposta também for a menor taxa, excelente.
Às vezes será.
Mas isso deve ser resultado da análise, não premissa.
Quero também construir uma rede suficientemente ampla para que essa escolha seja real. Não há independência intelectual quando existe apenas uma fonte disponível.
Se conheço um único banco, acabarei encontrando razões para o produto daquele banco servir.
Se conheço bancos, fundos, family offices e outras fontes privadas, posso começar pelo problema.
Isso exige relações.
E relações exigem histórico.
Não se cria uma rede de capital no dia em que o cliente precisa dela.
Talvez uma das coisas mais valiosas que eu esteja construindo nesses anos de trabalho low profile seja exatamente isso: um mapa que não aparece em nenhum lugar.
Quem olha o quê.
Quem responde.
Quem executa.
Quem aceita determinado setor.
Quem gosta de garantia imobiliária.
Quem prefere recebíveis.
Quem promete barato e muda condição depois.
Quem é caro, mas fecha.
Quem possui flexibilidade.
Quem desaparece na primeira dificuldade.
Não existe tabela pública que substitua completamente essa experiência.
Isso é parte da vantagem do broker.
Também é parte da vantagem de um family office.
O produto financeiro é copiável.
O mapa de relações acumulado ao longo de anos é menos copiável.
Talvez a tecnologia organize esse mapa.
Não consegue criar confiança instantaneamente.
Isso me leva novamente àquilo que considero acesso verdadeiro.
Acesso não é conhecer gente rica.
Não é participar de jantares privados.
Não é receber uma apresentação com “exclusive opportunity” na capa.
Acesso é conseguir mobilizar a relação economicamente quando existe uma necessidade real.
Um family office pode conhecer cinquenta outros family offices e não conseguir levantar R$ 10 milhões para um bom deal.
Outro conhece cinco e consegue.
O número de contatos é uma métrica social.
A capacidade de execução é econômica.
Quero sempre preferir a segunda.
Talvez seja assim que eu deva medir minha própria rede de loan broking.
Não quantos bancos conheço.
Quantas instituições realmente analisam quando eu ligo.
Não quantos empresários tenho na agenda.
Quantos me contam sua situação antes de o problema virar urgência.
Não quantas operações chegam.
Quantas merecem ser levadas ao capital.
Essas métricas talvez sejam menos impressionantes numa apresentação.
Provavelmente dizem mais sobre o negócio.
Há onze anos eu me perguntava como alguém vende dinheiro.
Hoje a pergunta quase me constrange pela simplicidade.
O dinheiro é apenas uma das coisas que precisam ser organizadas.
Talvez o verdadeiro produto seja estrutura.
Uma boa estrutura transforma capital em tempo sem transformar o futuro em armadilha.
Permite que o empresário aproveite uma oportunidade sem entregar liberdade demais.
Permite que o credor receba remuneração adequada sem depender de um cenário heroico.
Permite que uma família use o balanço sem comprometer patrimônio desnecessariamente.
Permite que investidores entrem num club deal sabendo o que possuem além de uma boa relação social.
Permite que o family office preserve opções quando o mercado fica pior.
É menos excitante que falar de retorno.
Talvez justamente por isso seja mais importante.
O retorno aparece na apresentação.
A estrutura aparece na crise.
E talvez seja essa a regra que 2021 está começando a me ensinar:
o melhor dinheiro não é necessariamente aquele que cobra menos para entrar.
É aquele que não se torna dono de suas decisões depois.
Leo Bentier