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Open USD: quando o pedágio descobre que também pode emitir a estrada

A stablecoin não está destruindo o sistema financeiro tradicional; está ensinando o sistema financeiro tradicional a roubar de volta o float que deixou escapar.

29 de junho de 2026

Quando uma pergunta muda, o múltiplo muda antes do balanço.

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XThreadsin

Open USD: quando o pedágio descobre que também pode emitir a estrada

A stablecoin não está destruindo o sistema financeiro tradicional; está ensinando o sistema financeiro tradicional a roubar de volta o float que deixou escapar.

Visa e Mastercard passaram décadas fingindo guerra total por alguns pontos-base em cada transação do planeta. O investidor comum via duas redes rivais. Eu via duas alfândegas privadas. Não produzem o produto. Não carregam a mercadoria. Não emprestam necessariamente o dinheiro. Apenas ficam no caminho certo, no momento certo, cobrando uma fração pequena o bastante para parecer inevitável e grande o bastante para virar uma máquina de capitalização composta.

Agora aparecem do mesmo lado da mesa.

Junto de BlackRock, Google, Coinbase, Stripe, bancos, fintechs, processadores, carteiras, redes e mais de uma centena de participantes, assinam o nascimento do Open USD. O nome é ruim. Isso não importa. Nomes bons frequentemente escondem negócios ruins. Nomes genéricos às vezes escondem mudanças de regime.

A tese superficial é cripto. A tese real é float.

Stablecoin não é uma moeda nova. É um recibo digital sobre uma moeda velha. O cliente entrega dólares reais. Recebe um token que promete valer um dólar. O emissor fica com os dólares reais e compra ativos líquidos, quase sempre instrumentos curtos do Tesouro americano. O usuário recebe estabilidade. O emissor recebe juros. Quando os juros são altos, a stablecoin se torna uma fábrica de lucro. Quando a equipe é pequena, a fábrica parece obscena.

Tether mostrou o tamanho da obscenidade.

O público chama isso de inovação. Eu chamaria de banco sem agência, sem gerente sorridente, sem carpete, sem publicidade bancária e sem pagar juros ao depositante. A beleza está na ausência. Ausência de custo físico. Ausência de rede legada. Ausência de remuneração ao usuário final. Ausência de vergonha.

Mas toda ausência lucrativa atrai predadores.

O erro dos cripto-nativos foi acreditar que o sistema financeiro tradicional olharia para uma pilha de lucro flutuando em T-bills e diria: “parabéns, fiquem com isso”. Bancos, redes de pagamento e gestores de ativos não são românticos. Eles não odeiam cripto por princípio. Odeiam apenas quando o lucro fica do lado errado da mesa.

Open USD é a resposta institucional mais lógica: se o lucro da stablecoin vem do float, e se o float depende de distribuição, liquidez, confiança, integração, compliance, merchants, bancos, wallets, processadores e canais, por que o emissor deveria ficar com tudo?

Essa é a pergunta que ameaça o modelo inteiro dos emissores puros.

A proposta é simples. Os parceiros podem emitir e resgatar OUSD sem custo relevante, sem limite de volume, e recebem quase todo o rendimento das reservas, descontada uma pequena taxa de gestão. Em outras palavras, o Open USD tenta transformar a stablecoin de produto proprietário em infraestrutura compartilhada. O dinheiro deixa de remunerar apenas o dono da impressora. Passa a remunerar quem traz a circulação.

Parece justo. O mercado não paga por justiça. Paga por poder.

E o poder aqui está no canal. Tether tem liquidez e hábito. Circle tem compliance e relações institucionais. Mas Visa, Mastercard, Stripe, Coinbase, bancos e grandes plataformas têm distribuição. O ativo mais escasso em finanças nunca foi tecnologia. Foi confiança empacotada em comportamento repetido. O usuário não quer estudar reserva, attestation, smart contract, custódia, solvência, risco regulatório e liquidez secundária. O usuário quer que funcione.

Quem controla “funciona” controla o spread.

A parte mais interessante não é Visa entrando em stablecoins. É Visa admitindo que stablecoins podem ser inevitáveis o bastante para merecer assento na mesa. O incumbente inteligente não tenta parar a maré. Ele compra uma doca, regula o porto e passa a cobrar pelo desembarque.

Mastercard sabe a mesma coisa.

As redes de cartão não estão se suicidando. Estão tentando evitar que outro escolha onde elas serão esfaqueadas. Stablecoins ameaçam parte do modelo de settlement, cross-border, treasury movement e pagamentos B2B. Mas também criam novas superfícies de monetização: identidade, compliance, merchant acceptance, fraud prevention, token orchestration, gateways, chargeback alternativo, integração com bancos, liquidação programável e contas empresariais.

O público pensa que pagamento é mover dinheiro. Pagamento é mover confiança.

Dinheiro sem confiança é metal, papel ou dado. Confiança sem distribuição é monastério. Distribuição sem economia é caridade. Open USD tenta juntar os três: dólar, rede e incentivo.

Mas há veneno dentro da própria elegância.

Se quase todo o rendimento das reservas volta aos parceiros, onde está a margem estrutural do operador? Se todos os grandes participantes governam, quem decide quando a decisão precisa ser impopular? Se o conselho é amplo, quem age quando há corrida de resgate? Se a stablecoin é aberta, quem absorve o dano quando algo falha? Governança compartilhada soa nobre durante conferências. Durante pânico, governança compartilhada costuma virar fila de advogados.

Uma stablecoin só é realmente testada em três momentos: quando a taxa de juros cai, quando o regulador muda de humor, e quando o mercado exige resgate enquanto todos os outros fingem calma.

Ainda não vimos o Open USD nesses três momentos. Vimos um anúncio. Anúncios não quebram. Produtos quebram.

Por isso eu não compraria a euforia como tese primária.

Também não compraria o token. O token não é equity. Um dólar tokenizado é uma promessa operacional, não uma participação no lucro. O investidor que compra stablecoin achando que está comprando a empresa está confundindo recibo com fábrica.

A operação, se existisse com preço certo, estaria no mercado de ações e derivativos, não no token.

Eu olharia primeiro para os emissores puros de stablecoin que foram ou serão avaliados como se o rendimento das reservas fosse propriedade permanente. Nada em finanças que depende de um spread gordo permanece sem concorrência. O lucro alto é um convite. A margem obscena é uma intimação.

Se Circle estiver precificada como dona de uma ponte exclusiva, eu perguntaria: exclusiva por quanto tempo? Se Coinbase depende economicamente de acordos de receita com USDC, eu perguntaria: quanto dessa receita é parceria e quanto é transição até uma stablecoin mais alinhada ao distribuidor? Se Tether fosse pública, a pergunta seria ainda mais brutal: quanto do prêmio vem de opacidade tolerada porque os lucros são grandes demais para serem ignorados?

Tether não está morto. Isso seria pensamento infantil. Tether tem liquidez, uso global, mercados emergentes, pares de negociação e uma forma de confiança paralela que instituições tradicionais não entendem completamente. Em muitos lugares, Tether não compete com banco americano. Compete com moeda local ruim, controle de capital e incompetência estatal. Isso é uma fortaleza diferente.

Mas o lucro de Tether revelou a mina.

E minas reveladas recebem ferrovias, impostos, guardas e ladrões.

Minha forma de me posicionar seria pequena, assimétrica e desconfiada. Eu não compraria Visa ou Mastercard apenas porque estão no consórcio. São empresas excelentes, mas o tamanho já cobra ingresso caro. Eu também não sairia vendendo as redes de cartão como se stablecoins fossem substituí-las amanhã. Isso é o tipo de erro que homens impacientes cometem quando confundem direção com duração.

Eu buscaria uma estrutura relativa.

Comprado em infraestrutura de distribuição que ganha com adaptação, vendido ou protegido contra emissores monoline cujo valuation depende do float concentrado. Em termos simples: long seletivo em rails que podem incorporar stablecoins sem perder a alma; puts ou put spreads longos em emissores públicos que o mercado precificou como se os juros sobre reservas fossem uma propriedade privada eterna. Se a opção estiver cara, não há operação. A tese pode estar certa e a operação ainda ser burra.

Essa distinção salva capital.

Eu preferiria esperar um rali de alívio nos nomes atingidos pelo anúncio. O mercado primeiro entra em pânico, depois racionaliza, depois exagera na direção oposta. O melhor short raramente nasce no primeiro dia da má notícia. Nasce quando a empresa explica que “não há impacto material”, os analistas repetem a frase, e a ação recupera o suficiente para vender seguro a quem esqueceu que o incêndio começou.

O risco da tese é claro. Open USD pode fracassar por excesso de comitê. Pode não ganhar liquidez. Pode virar mais um token institucional sem uso real. Pode ser capturado por bancos. Pode enfrentar restrições regulatórias. Pode descobrir que dividir economia com todo mundo cria incentivo para ninguém carregar o piano. Pode ainda provar que o incumbente entendeu a ameaça tarde demais.

Mas a direção estrutural parece difícil de negar.

O lucro do float está sendo reprificado. Antes, a pergunta era: quem emite a stablecoin? Agora, a pergunta passa a ser: quem merece o rendimento da stablecoin? O emissor? O distribuidor? O banco? O merchant? A wallet? A rede? O usuário? O regulador?

Quando uma pergunta muda, o múltiplo muda antes do balanço.

A maioria ainda discutirá “cripto venceu” ou “bancos venceram”. Esse debate é para amadores. O que está acontecendo é mais sujo e mais interessante. O sistema financeiro tradicional não está se rendendo. Está absorvendo o mecanismo que o ameaçava, removendo parte da margem dos pioneiros e redistribuindo o prêmio para quem controla fluxo, licença e confiança.

A stablecoin era vendida como rebelião contra intermediários.

Open USD é a vingança dos intermediários.

E talvez seja por isso que merece atenção.

Não porque será necessariamente o vencedor. Mas porque mostra que o jogo mudou. Quando Visa e Mastercard param de brigar por uma transação e se juntam para redesenhar a economia do dólar tokenizado, o investidor não deveria perguntar se aquilo é “cripto”. Deveria perguntar quem fica com os juros.

A resposta antiga era: o emissor.

A resposta nova pode ser: quem move o dinheiro.

Mercados não punem quem está errado poeticamente. Punem quem está errado economicamente. Se o Open USD funcionar, o valor não será destruído. Será redistribuído. E redistribuição de valor é o nome educado para compressão de múltiplo em quem estava recebendo demais.

Eu não apostaria contra stablecoins.

Eu apostaria contra a ideia de que o lucro delas continuará morando no mesmo endereço.

Leo Bentier

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