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Quando a confiança implícita quebra, o sistema para de funcionar — não porque o dinheiro sumiu, mas porque ninguém sabe onde está o risco.

O que travou os mercados de crédito não foi um banco quebrando. Foi a percepção de que os ratings em que todos confiavam podiam estar errados.

20 de agosto de 2007

Quando a confiança implícita quebra, o sistema para de funcionar — não porque o dinheiro sumiu, mas porque ninguém sabe onde está o risco.

O que travou os mercados de crédito não foi um banco quebrando. Foi a percepção de que os ratings em que todos confiavam podiam estar errados.

O BNP Paribas suspendeu resgates em três fundos com exposição a hipotecas americanas. O Banco Central Europeu injetou €95 bilhões em liquidez nos mercados em uma única operação. O mercado interbancário — onde bancos emprestam uns aos outros a curtíssimo prazo — está funcionando com spreads que não se viam há anos. O que está acontecendo não é uma crise de crédito convencional, onde tomadores deixaram de pagar. É algo mais fundamental: uma quebra de confiança nos próprios instrumentos que o sistema usava para transferir e distribuir risco.

Os mercados de crédito modernos funcionam porque participantes confiam, sem verificar, nas classificações atribuídas por agências como a Moody's e a S&P. Quando um banco compra um CDO com rating AAA, ele não faz due diligence sobre cada hipoteca no pool subjacente. Confia que quem estruturou o instrumento e quem atribuiu o rating fizeram essa análise. Esse sistema de confiança delegada funciona enquanto os instrumentos se comportam como o rating indica. Quando param — como está acontecendo agora — a confiança não cai gradualmente. Colapsa. Porque o que as pessoas descobrem é que nunca tiveram informação suficiente para confiar com fundamento. Confiaram na confiança de outros.

A consequência operacional é que os mercados estão parando de funcionar não porque o crédito seja ruim, mas porque ninguém tem certeza de quem tem quanto de crédito ruim. Um banco que precisaria emprestar a outro não sabe o que está no balanço do outro. E como não sabe, prefere não emprestar. Quando todos ficam cautelosos ao mesmo tempo, a liquidez que o sistema precisava para funcionar desaparece — não porque o dinheiro sumiu, mas porque a confiança que o fazia circular sumiu primeiro. Injeção de liquidez resolve o sintoma. Não resolve a incerteza sobre onde está o risco.

Leo Bentier

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