Quando a fábrica virou ativo financeiro, ela parou de ser uma fábrica.
A venda da Chrysler para o Cerberus revela que o modelo industrial americano não sobreviveu à globalização. O que sobrou não é uma montadora.
24 de maio de 2007
Quando a fábrica virou ativo financeiro, ela parou de ser uma fábrica.
A venda da Chrysler para o Cerberus revela que o modelo industrial americano não sobreviveu à globalização. O que sobrou não é uma montadora.
A DaimlerChrysler anunciou a venda da Chrysler para o fundo Cerberus Capital Management por $7.4 bilhões — uma fração do que a Daimler pagou em 1998. A fusão de 1998 foi vendida como a criação de um gigante global capaz de competir em todos os mercados. Nove anos depois, a Daimler está pagando para se desfazer do problema americano. O que aconteceu entre esses dois momentos é uma aula sobre o que globalização faz com modelos industriais que não se adaptam.
O problema da Chrysler não é qualidade de produto. É estrutura de custos. Décadas de acordos sindicais criaram obrigações com aposentados e planos de saúde que tornam cada carro produzido nos Estados Unidos mais caro do que os equivalentes fabricados pela Toyota ou Honda. Quando os mercados eram protegidos geograficamente, esse custo era absorvível. Quando a competição se tornou global, passou a ser uma desvantagem estrutural permanente. Gestão melhor, design melhor, marketing melhor — nada disso resolve um custo fixo que você não pode reduzir porque está em contrato.
Fundos de private equity não compram empresas para operá-las indefinidamente — compram para extrair valor em um horizonte de 5 a 7 anos. Com a Chrysler, isso provavelmente significa redução de força de trabalho, renegociação de benefícios e venda dos ativos que tiverem valor separado da operação de montagem. O símbolo mais claro do que está acontecendo é que a empresa que vendeu o sonho americano em formato de automóvel por décadas foi comprada por um fundo chamado em homenagem ao cão de três cabeças que guarda a entrada do inferno. Isso não é coincidência. É descrição.
Leo Bentier