Toda empresa é uma máquina de seleção. E ela sempre seleciona conformismo.
Há um mapa que separa os obedientes dos independentes e os convencionais dos não convencionais. Toda empresa, pelos seus processos de seleção, recompensa o conformismo — porque o conformismo é legível e seguro — e seleciona contra o independente. E sem o independente, ninguém vê o que o consenso não vê.
1 de agosto de 2020
Toda empresa é uma máquina de seleção. E ela sempre seleciona conformismo.
Há um mapa que separa os obedientes dos independentes e os convencionais dos não convencionais. Toda empresa, pelos seus processos de seleção, recompensa o conformismo — porque o conformismo é legível e seguro — e seleciona contra o independente. E sem o independente, ninguém vê o que o consenso não vê.
Há um mapa que divide as pessoas em quadrantes — separando os que obedecem das regras dos que pensam por conta própria, os convencionais dos não convencionais. E ele ilumina uma verdade incômoda sobre as organizações. Toda empresa é uma máquina de seleção. E ela quase sempre seleciona conformismo. Pelos seus processos de contratação e promoção, a empresa recompensa o conformista — porque o conformismo é legível e seguro — e seleciona contra o independente. E sem o independente, ninguém vê o que o consenso não vê.
Comece pela ideia da empresa como máquina de seleção. A empresa seleciona pessoas continuamente — quem contratar, quem promover, quem reter. Esses processos de seleção, ao longo do tempo, moldam quem a empresa tem: eles selecionam certos tipos e descartam outros. A empresa é uma máquina de seleção porque seus processos, repetidos, selecionam sistematicamente certos perfis. E a pergunta crucial é: que perfil a máquina de seleção da empresa seleciona? A resposta, quase sempre, é o conformismo — porque os processos de seleção tendem a recompensar o conformista e a selecionar contra o independente.
Aqui está por que a máquina de seleção recompensa o conformismo. O conformista é legível e seguro: ele segue as regras, encaixa-se nos processos, comporta-se de forma previsível e fácil de avaliar. A seleção — contratação, promoção — recompensa o que é legível e seguro, porque é mais fácil avaliar e menos arriscado escolher. O independente, ao contrário, é ilegível e arriscado: ele questiona as regras, não se encaixa nos processos, comporta-se de forma menos previsível. A seleção tende a descartá-lo, porque ele é mais difícil de avaliar e mais arriscado de escolher. A máquina de seleção recompensa o conformismo porque o conformista é legível e seguro, e seleciona contra o independente porque ele é ilegível e arriscado.
Aqui está o que a empresa perde ao selecionar conformismo. O independente — a mente que pensa por conta própria, que questiona o consenso — é justamente quem captura o que o consenso não vê: a falha que todos ignoram, a oportunidade que ninguém percebe, o risco que o conformismo não enxerga. Ao selecionar contra o independente, a empresa perde essa capacidade — fica cheia de conformistas que veem o que o consenso vê, e sem independentes que veriam o que o consenso não vê. A empresa que sempre seleciona conformismo fica cega ao que só o pensamento independente captaria — perde a faculdade de ver além do consenso, porque selecionou contra quem a teria.
Repare na conexão com o cuidado com o consenso que apontei. Apontei que vale desconfiar do consenso, que o pensamento independente captura o que o consenso ignora, que ouvir quem diverge é valioso. A empresa como máquina de seleção de conformismo é a dinâmica que destrói essa faculdade dentro da organização: ao selecionar contra o independente, a empresa elimina quem desconfiaria do consenso, quem captaria o que ele ignora. O que vínhamos vendo sobre o valor do pensamento independente se choca com a tendência da empresa a selecioná-lo para fora: a máquina de seleção, ao recompensar o conformismo, remove justamente a faculdade de divergir do consenso que protege contra o que ele não vê.
Veja o paradoxo e o perigo da seleção de conformismo. O conformismo é selecionado porque parece seguro — o conformista é previsível, fácil, de baixo risco individual. Mas o acúmulo de conformistas cria um risco coletivo: uma organização cega ao que o consenso não vê, incapaz de captar o sinal que diverge, frágil ao que só o independente perceberia. A seleção de conformismo é segura em cada escolha individual e perigosa no acúmulo: cada conformista parece a escolha segura, mas a organização toda de conformistas fica perigosamente cega. O paradoxo é que selecionar o seguro (o conformista) em cada passo produz o perigoso (a cegueira coletiva ao que o consenso não vê) no conjunto.
É preciso, em equilíbrio, reconhecer que o conformismo tem valor e que nem todo independente é valioso. Alguma conformidade é necessária — a empresa precisa de coordenação, de pessoas que sigam processos, de previsibilidade; o conformismo não é puro mal. E nem todo independente é um gênio que vê o que o consenso não vê; alguns são apenas difíceis sem o discernimento que justificaria. O ponto não é que toda empresa deva ser cheia de independentes ou que o conformismo seja sempre ruim, mas que a máquina de seleção tende a selecionar conformismo em excesso, eliminando os independentes valiosos que capturam o que o consenso não vê. A maturidade é resistir à tendência da máquina — preservar deliberadamente espaço para o independente valioso, contra a seleção que naturalmente o descarta em favor do conformista legível e seguro.
Para o investidor e o gestor, isto sugere desconfiar da empresa que selecionou conformismo até a cegueira, e valorizar a que preservou o independente. A pergunta sobre uma empresa não é apenas 'quão bem coordenada ela é?', mas 'ela preservou as mentes independentes que capturam o que o consenso não vê, ou selecionou conformismo até ficar cega?'. As empresas cheias de conformistas são previsíveis e cegas ao que diverge do consenso; as que preservaram independentes mantêm a faculdade de ver além dele. Quem avalia a empresa só pela coordenação perde a cegueira que a seleção de conformismo cria; quem reconhece a máquina de seleção vê o risco da empresa que eliminou o pensamento independente, e o valor da que resistiu à tendência de selecioná-lo para fora.
A regra deste momento: toda empresa é uma máquina de seleção que tende a recompensar o conformismo — legível e seguro — e a selecionar contra o independente — ilegível e arriscado —, perdendo justamente as mentes que capturam o que o consenso não vê. Quem deixa a máquina selecionar conformismo livremente fica com uma organização cega ao que diverge; quem resiste à tendência preserva o pensamento independente que protege contra o que o consenso não enxerga.
Toda empresa é uma máquina de seleção. E ela sempre seleciona conformismo. Pelos seus processos de contratação e promoção, a empresa recompensa o conformista — legível e seguro — e seleciona contra o independente, perdendo quem captura o que o consenso não vê. Anote a empresa como máquina de seleção não como uma metáfora, mas como uma dinâmica perigosa — a demonstração de que a seleção tende a recompensar o conformismo e a descartar o pensamento independente, de que selecionar o seguro em cada passo produz a cegueira coletiva no conjunto, e de que a empresa que sempre seleciona conformismo fica cega ao que só o independente — selecionado para fora justamente por ser ilegível e arriscado — teria a capacidade de ver além do consenso.
Leo Bentier